Dentro do contexto da cardiologia do esporte, a zona cinzenta é um dos cenários mais desafiadores da prática clínica. Manter-se em constante atualização é, portanto, fundamental para uma avaliação correta e segura desses pacientes.
Trago aqui um artigo de revisão recentemente publicado no BMJ, fazendo uma síntese dos principais pontos voltados para a ecocardiografia.

Aqui vale destacar o conceito de que a “zona cinzenta” não representa um cenário estático, mas um espectro dinâmico de condições em que adaptação fisiológica, expressão fenotípica incompleta e diagnóstico precoce de uma eventual doença cardíaca podem coexistir e se sobreporem ao longo do tempo.
FENÓTIPO HIPERTRÓFICO: a cardiomiopatia hipertrófica (CMPH) é a doença cardíaca hereditária mais comum e se caracteriza pela presença de hipertrofia ventricular esquerda com espessura da parede miocárdica ≥ 15 mm em um ou mais segmentos e que não pode ser explicada por outras condições.
A morte súbita (MS) cardíaca é uma das complicações mais temidas da CMPH e habitualmente ocorre em indivíduos jovens e atletas, podendo inclusive ser a primeira manifestação da doença. A estratificação de risco dos indivíduos portadores de CMPH é crucial para a prevenção de MS e para um manejo correto durante o seguimento clínico.
O aumento da espessura diastólica das paredes do ventrículo esquerdo (VE), que eventualmente pode ser observado em atletas de elite, por vezes leva a suspeição diagnóstica de CMPH. O dilema reside nos casos de atletas assintomáticos e com hipertrofia assimétrica leve (13-15 mm) do ventrículo esquerdo.
O aumento fisiológico da espessura diastólica das paredes do VE normalmente é acompanhado de aumento de todas as 04 câmaras cardíacas, bem como de parâmetros normais da função diastólica e com função sistólica longitudinal preservada.
Neste contexto, é crucial não apenas medir os valores absolutos da espessura das paredes, mas levar em consideração a relação entre a espessura diastólica e o tamanho do VE. Quanto temos uma espessura relativa das paredes (ERP) ultrapassando 0.5, a suspeita de fenótipo patológico deve ser valorizada, independentemente da etnia do paciente.
Outros fatores que podem sugerir padrão patológico são (1) disfunção diastólica, (2) hipertrofia assimétrica, (3) cavidade ventricular pequena e (4) obstrução dinâmica do fluxo na via de saída do VE (VSVE).
Aqueles que se enquadram na zona cinzenta devem ser investigados e a ressonância magnética (RM) cardíaca é essencial neste contexto. Outras ferramentas diagnósticas incluem teste cardiopulmonar – se espera que atletas sem doença tenham uma maior tolerância ao exercício físico, com pico de VO2 > 50 ml/Kg/min ou > 20% acima do valor máximo previsto), bem como não apresentem arritmias induzidas pelo esforço. O teste genético deve ser reservado para aqueles com alta nível de suspeição ou quando o diagnóstico ainda é incerto.


FENÓTIPO DILATADO: a cardiomiopatia (CMP) dilatada é definida pela presença de dilatação do VE (ou de ambos os ventrículos) associada a disfunção sistólica na ausência de alterações de enchimento ou de doença coronária suficientes para causar disfunção sistólica global.
O documento ressalta que o fluxo diagnóstico para CMP dilatada sugerido engloba fases iniciais das doenças e/ou fenótipos mais brandos nos quais a cardiomiopatia hipocinética não dilatada se enquadra pela presença de disfunção ventricular esquerda, mesmo com cavidades cardíacas com diâmetros normais.
Como sabemos, não é incomum, sobretudo em atletas de endurance, termos dilatação ventricular esquerda associada a redução da fração de ejeção (FE), sem que esses achados signifiquem doença. Ciclistas profissionais, por exemplo, podem apresentar diâmetro diastólico final do VE > 60 mm em até metade dos casos.
A fração de ejeção, no fenótipo adaptativo, frequentemente se encontra no limite inferior da normalidade ou levemente reduzida (45-54%) nos atletas de endurance. Parâmetros anormais de função diastólica ou redução do strain longitudinal apontam para fenótipo patológico.
Fração de encurtamento < 25% ou FE < 45% e diâmetro diastólico final do VE > 117% (> 2 desvios padrão) na ausência de doença miocárdica caracterizam a CMP dilatada.


CARDIOMIOPATIA ARRITMOGÊNICA: o grande marco da cardiomiopatia (CMP) arritmogênica e a substituição do miocárdio por tecido fibrogorduroso, afetando frequentemente ambos os ventrículos e predispondo a arritmias fatais.
A atividade física de alta intensidade é considerada um gatilho, pelo seu estímulo inflamatório, para a substituição fibrogordurosa em indivíduos predispostos. A morte súbita cardíaca e disfunção sistólica progressiva dos ventrículos compõem as complicações mais temidas.
Durante a atividade física, o ventrículo direito (VD) é submetido a um estresse parietal significativo, induzindo adaptação ao aumento da pré-carga. Assim, atletas, sobretudo aqueles de modalidades de endurance, exibem dilatação desta cavidade.
De forma geral, a ecocardiografia é pouco sensível para o diagnóstico da cardiomiopatia arritmogênica, porém disfunção sistólica do VD (FAC ≤ 30%) com ou sem alteração da contratilidade segmentar, em atletas, sugerem padrão patológico.


É sempre importante destacar que variáveis como sexo, idade e etnia devem ser levadas em consideração na interpretação dos achados de imagem.
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Graduado em medicina pela Universidade Potiguar (UnP). Possui residência em Clínica Médica pelo Hospital Universitário Onofre Lopes – HUOL (UFRN) e em Cardiologia pelo Procape – UPE. Porta o título de especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e é pós-graduado em Ecocardiografia, pela ECOPE.