Quem trabalha com atletas ou praticantes de atividade física de alta intensidade, seja do ponto de vista clínico ou de métodos diagnósticos, precisa ter um entendimento profundo da mecânica cardíaca e como ela é impactada (de forma positiva ou negativa !) pelas adaptações induzidas pela atividade física de alta intensidade.
Portanto, a utilização de recursos avançados na ecocardiografia é quase que obrigatório para uma correta avaliação desta população e isso já está bem embasado na literatura médica. Para quem pensa que estamos falando em algo novo, revolucionário ou que estamos querendo “inventar a roda“, sinto dizer que não é de hoje que os estudos apontam para a utilização destas ferramentas na medicina do esporte. Quer ver ?

Publicação de 2018 (!!!) cujo objetivo foi fornecer uma atualização sobre o impacto na função ventricular esquerda após exercício de endurance prolongado (pelo menos 02h de duração), com emprego de novas técnicas ecocardiográficas incluindo strain miocárdico pelo speckle-tracking, para o entendimento mais amplo da mecânica cardíaca segmentar e global.
Os critérios de inclusão foram (1) duração do exercício > 120 minutos, (2) análise pré e pós exercício e (3) população saudável sem histórico de doença cardiovascular. Assim, foram inclusos 27 estudos nesta meta análise.


Os parâmetros de função sistólica avaliados foram (1) fração de ejeção, (2) MAPSE, (3) strain longitudinal, (4) radial, (5) circunferencial e (6) strain rate sistólico (SRS), bem como (7) taxas de torção e (8) twist.
Já as variáveis de função diastólica incluíram (1) velocidade de onda E, (2) velocidade de onda A, (3) velocidade de onda E´, (4) velocidade de onda A´, (5) longitudinal, radial e circunferencial strain rate diastólico, assim como (6) untwist.
Logo após um exercício de endurance prolongado, a frequência cardíaca (FC) se mostrou significativamente mais elevada, saindo de 59 ± 1 (56–61) bpm para 78 ± 2
(76–81) bpm, enquanto que a pressão arterial sistólica (PAS) mostrou redução significativa, saindo de 126 ± 2 (121–131) mmHg para 115 ± 3 (109–132) mmHg.
O volume diastólico final do ventrículo esquerdo (VE) apresentou redução significativa, saindo de 125 ± 11 ml para 117 ± 11 ml entre as fases pré e pós exercício [d = − 0.53, 95% CI (− 0.8 to − 0.3, P < 0.001)].
Em relação aos parâmetros de função sistólica foi observado uma redução significativa na fração de ejeção (FE) de -0.8 (− 1.2 até − 0.5) indicando uma redução global da função sistólica logo após um exercício de endurance prolongado. Como a FE é altamente influenciada pelas pré e pós cargas, estudos mais recentes (à época) passaram a focar mais na análise do Doppler tissular e/ou strain miocárdico como parâmetros mais representativos (!!!) da função sistólica global e regional do VE.
Em relação a velocidade da onda S´ pelo Doppler tissular, não houve diferenças nas análises pré e pós (9.5 ± 0.8–9.7 ± 0.9 cm/s, P = 0.9). A velocidade da onda S´ é particularmente influenciada pela frequência cardíaca (FC) e pressão arterial, então diferenças encontradas entre estudos em relação a esses dois parâmetros pode explicar resultados anteriores conflitantes sobre o comportamento da onda S´ pós esforço prolongado. Outro detalhe importante a ser considerado é que a onda S´ deriva de uma pequena área do septo basal e pode, portanto, não refletir alterações na função global.
A meta-análise identificou uma redução significativa no strain longitudinal, de − 0.9 (− 1.0 a − 0.5) e do strain rate sistólico, de − 0.9 (− 1.3 a − 0.5). Poucos estudos avaliaram o strain circunferencial (n = 4) e radial (n = 4) após o exercício de endurance e, assim, foi observado uma redução não significativa deste parâmetro, devendo esta informação ser considerada de forma cautelosa.

George et al. (2009) demonstrou alterações no strain do ventrículo esquerdo e no strain rate sistólico em todos os planos, com maior redução pós exercício observada na deformação radial e circunferencial no estudo deles com maratonistas (360 minutos de corrida).
Achados similares foram demonstrados no strain longitudinal e radial, bem como no strain rate sistólico, após maratona e ultramaratona (100 milhas) por Oxborough et al. (2010), Oxborough et al. (2011) e La Gerche et al. (2012).
Os resultados da meta-análise mostraram uma redução no twist de − 1.0 (− 1.6 a − 0.3) no pós exercício. O twist do VE reflete a quantidade de energia armazenada no miocárdio durante a contração sistólica que, por sua vez, é liberada subsequentemente na diástole. Todos os 05 estudos avaliados na meta-análise reportaram uma redução deste parâmetro após esforço prolongado.
Foi demonstrado também uma redução na velocidade da onda E de -1.0 (-1.4 a -0.6) após o exercício. Da mesma forma, houve uma compensação com aumento da velocidade da onda A e menor relação E/A. Esses achados sustentam as alterações da função diastólica observadas em meta-análises anteriores.
Também foi observado uma redução de -0.7 (-0.5 a -1.0) na onda E´ no pós excercício.

Dado o pequeno número de estudos com avaliação do strain rate diastólico e do untwist, estes parâmetros não foram incluídos na meta-análise.
Esses achados descritos na publicação dão suporte às evidências já existentes que demonstram uma redução significativa, porém transitória, das funções sistólica e diastólica do VE após exercícios prolongados. Tal fenômeno tem como base as (1) alterações nas condições de enchimento e de frequência cardíaca pós exercício, (2) graus subclínicos de dano ao cardiomiócito, (3) dessensibilização beta-adrenérgica e/ou (4) interação serial ou paralela ventricular.
Em resumo, temos uma publicação não tão recente assim avaliando parâmetros avançados de função ventricular esquerda, demonstrando que a análise avançada é extremamente importante na avaliação de praticantes de atividade física de alta intensidade e, portanto, deve ser estimulada para o uso na prática clínica.
Graduado em medicina pela Universidade Potiguar (UnP). Possui residência em Clínica Médica pelo Hospital Universitário Onofre Lopes – HUOL (UFRN) e em Cardiologia pelo Procape – UPE. Porta o título de especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e é pós-graduado em Ecocardiografia, pela ECOPE.