A prática regular de atividade física de alta intensidade leva a um remodelamento cardíaco fisiológico que resulta no fenótipo comumente descrito como “coração de atleta”. Embora considerados como saudáveis, os atletas também podem ser portadores de doenças cardiovasculares e, neste contexto, diferenciar adaptação de doença pode ser uma tarefa verdadeiramente desafiadora.
A utilização do strain pela ecocardiografia confere maior sensibilidade a esta modalidade diagnóstica no que diz respeito à detecção precoce de alterações funcionais e com o detalhe de apresentar uma variabilidade interobservador menor. Assim, o emprego desta técnica tem se tornado padrão na avaliação de atletas/esportistas.
Dentro do universo da cardiologia do esporte, conhecer as especificidades de cada modalidade esportiva é fundamental para ajudar no raciocínio clínico, sobretudo quando estamos diante da dita “zona cinzenta”.
Trago aqui uma recente publicação que avaliou o strain cardíaco atrial e ventricular em atletas de elite da modalidade de ciclismo. Vamos aos resultados…

O estudo ecocardiográfico foi realizado como parte da avaliação médica de rotina determinada pela entidade governamental de ciclismo Union Cycliste Internationale. Um total de 112 atletas de elite foram avaliados durante o período de 12/2027 a 02/2024. Dentre os participantes, estavam vencedores do Grand Tour, bem como medalhistas olímpicos.
No momento da avaliação, todos os atletas estavam em fase ativa de treinamento, com participação em competições internacionais. O volume de treino era de pelo menos 6 vezes/semana, com uma média de 15-25 horas/semana.
Todos os atletas eram do sexo masculino e apenas um deles não era caucasiano, sendo a maior parte de origem europeia. A idade média foi de 29 (24-32) anos. A altura média foi de 181.5 ± 6.3 cm e o peso, 72 (65-77) Kg.
A média da pressão arterial sistólica (PAS) foi de 120 (115-130) mmHg e da pressão arterial diastólica (PAD) de 75 (70-80 mmHg), sem que nenhum participante tivesse histórico de hipertensão arterial sistêmica (HAS).

Comparado com os valores de referência da American Society of Echocardiography (ASE), os atletas de elite demonstraram marcada hipertrofia ventricular esquerda e aumento modesto do diâmetro diastólico final do ventrículo esquerdo (VE). Já os volumes diastólico final e sistólico final indexado do VE apresentaram-se aumentados de forma relevante:
- Espessura diastólica do septo: 13 (12-14 mm) x 8 (6-10) mm, p < 0.0001;
- Índice de massa do ventrículo esquerdo: 155 ± 26 g/m² x 82 ± 17 g/m², p < 0.0001;
- Diâmetro diastólico final do VE: 51.1 ± 4.6 mm x 50.2 ± 4.1 mm, p = 0.046;
- Volume diastólico final do VE: 172 (152-191) ml x 106 (62-150) ml, p < 0.0001);
- Volume diastólico final indexado do VE: 96 ± 16.6 ml/m² x 54 ± 10 ml/m², p < 0.0001.

A fração de ejeção (FE) do VE (61.4 ± 5.6% x 62 ± 5%, p = 0.28) não mostrou diferença em relação aos valores da ASE. Por outro lado, os atletas apresentaram significativa dilatação do ventrículo direito (VD), com discreta diminuição do FAC.
- Diâmetro diastólico final do VD: 48 ± 6 mm x 33 ± 4 mm, p < 0.0001;
- Diâmetro da via de saída do VD: 31.6 ± 4.1 x 28 ± 3.5 mm, p < 0.0001;
- FAC: 46 ± 7% x 49 ± 7%, p = 0.0002).
Para o átrio esquerdo (AE), o volume indexado foi maior quando comparado com os valores de normalidade da ASE (32 ± 7 ml/m² x 25 ± 5 ml/m², p < 0.0001). O mesmo foi observado para o volume indexado do AD (39.4 ±9.7 ml/m² x 20.6 ± 6.4 ml/m², p < 0.0001).

O strain global longitudinal (SGL) do ventrículo esquerdo médio foi de -21.7 (-24.9 a -18.5)%, mostrando-se levemente aumentado em comparação com os valores de referências (-19.8 [-23.5 a -16.0]%, p < 0.0001) obtidos a partir de coorte norueguesa com homens < 40 anos de idade.

O strain de parede livre do ventrículo direito médio foi de -26.2 (-32.3 a -20.1)%, não sendo estatisticamente diferente dos valores de referência utilizados no estudo (-25.9 [34.7 a -17.1]%, p = 0.36).
Quanto ao strain do AE, as fases de reservatório (49.4 [31.0-67.8]% x 38.7 [24.2-53.2]%, p < 0.0001) e conduto (34.8 [49.4-20.2]% x 24.7 [36-23.3]%, p < 0.0001) foram significativamente maiores que a referência, enquanto que fase de bomba (14.7 [25.6-3.8]% x 14.0 [22.9-5.1], p = 0.20) não mostrou diferença.
O strain do átrio direito, realizado a partir do software de strain do AE na janela 4C, também mostrou fases de reservatório (46.7 [26.6-66.8]% x 42.3 [21.1 – 63.4]%, p < 0.0001) e conduto (32.8 [50.1-15.5]% x 27.6 [45-10.2]%, p < 0.0001) aumentadas, com os valores da fase de bomba compatíveis com os valores de normalidade (14 [24.3-3.7]% x 14.6 [23.7-5.5]%, p = 0.20).

Os achados, segundo os autores, indicam que, entre os atletas de elite da modalidade de ciclismo, o strain ventricular (VE e VD) são independentes da extensão da hipertrofia ventricular, bem como o strain dos átrios também se mostrou independente da magnitude do aumento destas cavidades.




Assim, a análise do strain é uma ferramenta útil não apenas para a avaliar a função sistólica, mas também a função diastólica na presença de alterações geométricas do coração.
Embora o strain longitudinal tenha se mostrado como variável independente da magnitude do remodelamento cardíaco, o strain do AE nas fases reservatório e conduto apresentaram uma relação inversa à massa ventricular esquerda.
Estes parâmetros de função atrial permaneceram supranormais dentro do espectro da hipertrofia ventricular esquerda, porém apenas aqueles atletas com hipertrofia leve mostraram valores supranormais mais elevados, enquanto que naqueles com hipertrofia mais pronunciada estes parâmetros se aproximaram dos valores habitualmente encontrados nos indivíduos não treinados.

Graduado em medicina pela Universidade Potiguar (UnP). Possui residência em Clínica Médica pelo Hospital Universitário Onofre Lopes – HUOL (UFRN) e em Cardiologia pelo Procape – UPE. Porta o título de especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e é pós-graduado em Ecocardiografia, pela ECOPE.