Ecocardiografia do Esporte – Adaptações Induzidas pelo Endurance e Técnicas Avançadas: não é de hoje …

Quem trabalha com atletas ou praticantes de atividade física de alta intensidade, seja do ponto de vista clínico ou de métodos diagnósticos, precisa ter um entendimento profundo da mecânica cardíaca e como ela é impactada (de forma positiva ou negativa !) pelas adaptações induzidas pela atividade física de alta intensidade.

Portanto, a utilização de recursos avançados na ecocardiografia é quase que obrigatório para uma correta avaliação desta população e isso já está bem embasado na literatura médica. Para quem pensa que estamos falando em algo novo, revolucionário ou que estamos querendo “inventar a roda“, sinto dizer que não é de hoje que os estudos apontam para a utilização destas ferramentas na medicina do esporte. Quer ver ?

European Journal of Applied Physiology (2018) 118:1291–1299

Publicação de 2018 (!!!) cujo objetivo foi fornecer uma atualização sobre o impacto na função ventricular esquerda após exercício de endurance prolongado (pelo menos 02h de duração), com emprego de novas técnicas ecocardiográficas incluindo strain miocárdico pelo speckle-tracking, para o entendimento mais amplo da mecânica cardíaca segmentar e global.

Os critérios de inclusão foram (1) duração do exercício > 120 minutos, (2) análise pré e pós exercício e (3) população saudável sem histórico de doença cardiovascular. Assim, foram inclusos 27 estudos nesta meta análise.

European Journal of Applied Physiology (2018) 118:1291–1299
European Journal of Applied Physiology (2018) 118:1291–1299

Os parâmetros de função sistólica avaliados foram (1) fração de ejeção, (2) MAPSE, (3) strain longitudinal, (4) radial, (5) circunferencial e (6) strain rate sistólico (SRS), bem como (7) taxas de torção e (8) twist.

Já as variáveis de função diastólica incluíram (1) velocidade de onda E, (2) velocidade de onda A, (3) velocidade de onda E´, (4) velocidade de onda A´, (5) longitudinal, radial e circunferencial strain rate diastólico, assim como (6) untwist.

Logo após um exercício de endurance prolongado, a frequência cardíaca (FC) se mostrou significativamente mais elevada, saindo de 59 ± 1 (56–61) bpm para 78 ± 2
(76–81) bpm, enquanto que a pressão arterial sistólica (PAS) mostrou redução significativa, saindo de 126 ± 2 (121–131) mmHg para 115 ± 3 (109–132) mmHg.

O volume diastólico final do ventrículo esquerdo (VE) apresentou redução significativa, saindo de 125 ± 11 ml para 117 ± 11 ml entre as fases pré e pós exercício [d = − 0.53, 95% CI (− 0.8 to − 0.3, P < 0.001)].

Em relação aos parâmetros de função sistólica foi observado uma redução significativa na fração de ejeção (FE) de -0.8 (− 1.2 até − 0.5) indicando uma redução global da função sistólica logo após um exercício de endurance prolongado. Como a FE é altamente influenciada pelas pré e pós cargas, estudos mais recentes (à época) passaram a focar mais na análise do Doppler tissular e/ou strain miocárdico como parâmetros mais representativos (!!!) da função sistólica global e regional do VE.

Em relação a velocidade da onda S´ pelo Doppler tissular, não houve diferenças nas análises pré e pós (9.5 ± 0.8–9.7 ± 0.9 cm/s, P = 0.9). A velocidade da onda S´ é particularmente influenciada pela frequência cardíaca (FC) e pressão arterial, então diferenças encontradas entre estudos em relação a esses dois parâmetros pode explicar resultados anteriores conflitantes sobre o comportamento da onda S´ pós esforço prolongado. Outro detalhe importante a ser considerado é que a onda S´ deriva de uma pequena área do septo basal e pode, portanto, não refletir alterações na função global.

A meta-análise identificou uma redução significativa no strain longitudinal, de − 0.9 (− 1.0 a − 0.5) e do strain rate sistólico, de − 0.9 (− 1.3 a − 0.5). Poucos estudos avaliaram o strain circunferencial (n = 4) e radial (n = 4) após o exercício de endurance e, assim, foi observado uma redução não significativa deste parâmetro, devendo esta informação ser considerada de forma cautelosa.

European Journal of Applied Physiology (2018) 118:1291–1299

George et al. (2009) demonstrou alterações no strain do ventrículo esquerdo e no strain rate sistólico em todos os planos, com maior redução pós exercício observada na deformação radial e circunferencial no estudo deles com maratonistas (360 minutos de corrida).

Achados similares foram demonstrados no strain longitudinal e radial, bem como no strain rate sistólico, após maratona e ultramaratona (100 milhas) por Oxborough et al. (2010), Oxborough et al. (2011) e La Gerche et al. (2012).

Os resultados da meta-análise mostraram uma redução no twist de − 1.0 (− 1.6 a − 0.3) no pós exercício. O twist do VE reflete a quantidade de energia armazenada no miocárdio durante a contração sistólica que, por sua vez, é liberada subsequentemente na diástole. Todos os 05 estudos avaliados na meta-análise reportaram uma redução deste parâmetro após esforço prolongado.

Foi demonstrado também uma redução na velocidade da onda E de -1.0 (-1.4 a -0.6) após o exercício. Da mesma forma, houve uma compensação com aumento da velocidade da onda A e menor relação E/A. Esses achados sustentam as alterações da função diastólica observadas em meta-análises anteriores.

Também foi observado uma redução de -0.7 (-0.5 a -1.0) na onda E´ no pós excercício.

European Journal of Applied Physiology (2018) 118:1291–1299

Dado o pequeno número de estudos com avaliação do strain rate diastólico e do untwist, estes parâmetros não foram incluídos na meta-análise.

Esses achados descritos na publicação dão suporte às evidências já existentes que demonstram uma redução significativa, porém transitória, das funções sistólica e diastólica do VE após exercícios prolongados. Tal fenômeno tem como base as (1) alterações nas condições de enchimento e de frequência cardíaca pós exercício, (2) graus subclínicos de dano ao cardiomiócito, (3) dessensibilização beta-adrenérgica e/ou (4) interação serial ou paralela ventricular.

Em resumo, temos uma publicação não tão recente assim avaliando parâmetros avançados de função ventricular esquerda, demonstrando que a análise avançada é extremamente importante na avaliação de praticantes de atividade física de alta intensidade e, portanto, deve ser estimulada para o uso na prática clínica.

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