
A insuficiência tricúspide (IT) é uma condição complexa e multifacetada, frequentemente subdiagnosticada ou diagnosticada tardiamente, presente em até 0,55% da população geral e aproximadamente 4-7% da população idosa.
É fortemente associada ao aumento da morbimortalidade, apresentando um grande desafio clínico e terapêutico que requer uma abordagem abrangente e multidisciplinar para o seu manejo.
Como a IT possui extenso e heterogêneo grupo de pacientes, recentemente estudos propuseram que a IT importante fosse subdividida em (1) importante, (2) maciça e (3) torrencial, com impacto prognóstico em hospitalização por insuficiência cardíaca (IC).

Tópicos
Avaliação Etiológica
a IT é funcional na maioria dos casos (> 90%), secundária a condições clínicas que levem a anormalidades do anel valvar tricúspide, átrio direito e/ou ventrículo direito.
A IT secundária atrial representa 10-25% dos casos, está associada a fibrilação atrial (FA) e é caracterizada por folhetos que não conseguem coaptar na presença de dilatação anular e atrial acentuadas, com estrutura e função do ventrículo direito (VD) normais.
A IT secundária ventricular está associada a pior prognóstico e se caracteriza pela dilatação e disfunção do VD, resultantes de hipertensão pulmonar pré-capilar ou pós-capilar, principalmente associadas ao envolvimento das câmaras cardíacas esquerdas (doenças valvares ou cardiomiopatias).
A IT relacionada a dispositivos eletrônicos implantáveis é vista como um subgrupo específico, pois pode apresentar características de IT primária e secundária.
Os casos de IT primária, em geral, estão relacionados à doença reumática e a doenças congênitas, podendo ainda estar associados a intervenções médicas prévias como biópsias endomiocárdicas de repetição, ocorrer em consequência de endocardite infecciosa ou outras causas mais raras.

Complicadores
Mesmo naqueles pacientes que não apresentam sintomas, a sobrecarga de volume constante imposta pela regurgitação tricúspide pode resultar em remodelamento excêntrico do ventrículo direito (VD), o que poderá justificar a intervenção sobre a valva.
Assim, os pacientes com dilatação ou disfunção (exceto quando importante) do VD serão considerados como portadores de fator complicador.
Pacientes com IT isolada moderada a importante apresentam maior taxa de mortalidade, independentemente da presença ou não de disfunção do VD, hipertensão pulmonar, FA, de insuficiência mitral ou de disfunção do VE. Além disso, também existe correlação entre o grau de regurgitação tricúspide e pior prognóstico.

Acompanhamento
Alguns grupos de pacientes devem ser monitorizados frequentemente devido ao risco de evolução da doença valvar para um quadro que necessite de algum tipo de intervenção. Sugere-se especial atenção aos seguintes grupos:
- IT importante assintomática e sem complicadores – até o presente momento, apresentam indicação de cirurgia valvar apenas se submetidos a abordagem de outra valvopatia esquerda;
- IT moderada assintomática – até o presente momento, apresentam indicação de cirurgia valvar apenas se submetidos a abordagem de outra valvopatia esquerda quando a dilatação anular for superior a 40 mm.

Estenose Tricúspide
A estenose tricúspide (ET) é uma valvopatia rara, representando < 1% de todas as lesões valvares. O ecocardiograma continua sendo a principal ferramenta para o (1) diagnóstico, (2) avaliação da etiologia e (3) determinação da gravidade anatômica.
A etiologia mais comum da ET é a doença reumática, responsável por > 90% dos casos, frequentemente acompanhada pelo comprometimento das válvulas mitral e/ou aórtica.
Outras causas possíveis incluem (1) cardiopatias congênitas (como anomalia de Ebstein), (2) síndrome carcinóide, (3) lúpus eritematoso sistêmico, (4) síndrome do anticorpo antifosfolípide, (5) causas iatrogênicas, (6) trombose, (7) endocardite infecciosa e outras.


Nos pacientes assintomáticos com ET importante, deve ser investigada a presença de complicadores para a indicação de tratamento intervencionista. A presença de sintomas secundários à estenose, por sua vez, indica intervenção cirúrgica ou percutânea.

São considerados complicadores a presença de fibrilação atrial e sinais de congestão sistêmica, como comprometimento da função hepática (elevação de enzimas, alteração do coagulograma).
Graduado em medicina pela Universidade Potiguar (UnP). Possui residência em Clínica Médica pelo Hospital Universitário Onofre Lopes – HUOL (UFRN) e em Cardiologia pelo Procape – UPE. Porta o título de especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e é pós-graduado em Ecocardiografia, pela ECOPE.