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Valva Mitral em Paraquedas Verdadeira ou Não: há de se procurar por outras alterações anatômicas

A valva mitral em paraquedas é uma anormalidade congênita caracterizada conexão única das cordoalhas tendíneas a um músculo papilar isolado e normalmente hipertrofiado. Este é um conceito anatômico importante e que é capaz de diferenciar esta condição de suas variantes anatômicas, descritas como “parachute-like“.

Aqui, de forma diferente, há a presença de dois músculos papilares assimétricos, em que o menor pode inclusive ter relação com alguma cordoalha a qual costuma ser curta, como também pode haver conexão direta com o anel da valva mitral, dando a aparência semelhante ao que ocorre na valva mitral em paraquedas.

Chen et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports January 2025

Do ponto de vista funcional, pode haver tanto regurgitação valvar quanto estenose, e há, com certa frequência, associação com outras alterações congênitas. Vamos exemplificar como isso pode acontecer na prática …

Chen et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports January 2025

Mulher, 63 anos de idade, realizou ecocardiograma transtorácico por presença de sopro diastólico identificado durante consulta de rotina. Assintomática, apresentava boa capacidade funcional aeróbica.

O exame mostrou o folheto anterior da valva mitral proeminente associado a um folheto posterior de dimensões diminuídas, com as cordoalhas tendíneas se conectando ao que parecia ser um músculo papilar proeminente e alongado, dando aparência sugestiva de valva mitral em paraquedas.

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Havia restrição de mobilidade dos folhetos com abertura valvar reduzida. O gradiente médio foi de 4 mmHg com uma frequência cardíaca (FC) de 81 bpm e pressão arterial de 133×76 mmHg, compatível com estenose mitral leve.

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A valva aórtica é bivalvular e apresentava jato regurgitante central que ocupava 60% do diâmetro da via de saída do ventrículo esquerdo (VE), com vena contracta 0,4 cm e PHT de 381 ms, compatível com refluxo valvar aórtico moderado.

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Chen et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports January 2025

A fração de ejeção do VE foi estimada em 60%, com diâmetro diastólico final de 43 mm (21 mm/m²). Havia também aumento da aorta ascendente (4,4 cm), bem como uma imagem linear transversalmente à raiz da aorta sugerindo trajeto coronário anômalo retroaórtico.

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Tomografia computadorizada (TC) cardíaca foi realizada cujo resultado mostrou valva mitral com orifício único, com folheto anterior proeminente e se conectando a um músculo papilar anterolateral também proeminente, com presença de um folheto posterior pequeno cuja conexão se dava com um músculo papilar posteromedial hipoplásico. Os achados foram consistentes com uma variante anatômica da valva mitral em paraquedas.

Chen et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports January 2025

A artéria coronária circunflexa (Cx) apresentava origem anômala no seio coronariano direito e trajeto retroaórtico benigno.

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Chen et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports January 2025

Como a paciente estava assintomática e apresentava excelente capacidade funcional, foi orientada a realizar seguimento ambulatorial periódico.

Pelas alterações anatômicas existentes, a valva mitral em paraquedas habitualmente leva a uma restrição de mobilidade dos folhetos e consequente estenose valvar, mas também pode levar a obstrução supravalvular e, menos frequentemente, cursar com insuficiência mitral.

Há uma forte associação com outras alterações congênitas cardíacas, como anel mitral supravalvar, estenose subaórtica, coarctação de aorta (de forma separada ou constituindo o complexo de Shone), defeito do septo interatrial, valva aórtica bicúspide, estenose supravalvar aórtica, dentro outras…

Embora haja uma diferença, do ponto de vista embriológico, entre a valvar mitral em paraquedas verdadeira e a “parachute-like”, a apresentação clínica normalmente é similar, particularmente nos casos em que o aparato subvalvar mitral é muito assimétrico, levando a estenose valvar e/ou insuficiência. De mesma forma, esta variante anatômica costuma se associar a outras alterações congênitas cardíacas, a citar drenagem venosa pulmonar anômala, persistência de veia cava superior esquerda, atresia pulmonar, entre outras.

Portanto, independentemente se estamos diante de uma valvar mitral em paraquedas verdadeira ou de uma variante anatômica, a busca ativa por outras alterações congênitas cardíacas se faz necessária.

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