Trombo Livre Flutuante: uma imagem que sempre assusta

O trombo livre esférico e flutuante, descrito como “ball thrombus”, é uma condição infrequente e mais comumente descrita em pacientes com estenose mitral (EMi) reumática.

Normalmente, apresentam aparência arredondada bem delimitada, ecogenicidade homogênea, mobilidade livre dentro da cavidade atrial esquerda com o movimento cíclico característico à ecocardiografia.

Apesar do elevado (catastrófico) potencial de complicações, esse tipo de trombo pode permanecer de forma silenciosa e ser detectado incidentalmente durante exame de rotina.

Trago aqui um caso, do periódico CASE, de um paciente completamente assintomático e com EMi reumática cujo ecocardiograma de rotina demonstrou presença de um trombo esférico livre apesar de terapia anticoagulante.

Yilmaz et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports Volume 10 Number 5

Mulher, 78 anos de idade, com histórico de EMi reumática, fibrilação atrial (FA), hipertensão arterial sistêmica (HAS), diabetes e depois episódios prévios de trombose venosa profunda, admitida para realizar ecocardiograma de rotina. No momento, encontrava-se assintomática.

Último ecocardiograma havia sido realizado há 03 anos, como parte do seguimento ambulatorial, e mostrava EMi reumática moderada, sem evidência de massas intracardíacas.

A paciente estava em uso de Varfarina há muito tempo e os últimos 05 controles de INR se mantinham entre 2.0-3.5. Ainda, fazia uso de diltiazem, metformina e outras medicações de uso crônico.

O ecocardiograma transtorácico mostrou aumento importante do diâmetro do átrio esquerdo (9.9 cm), sendo que a medida do volume atrial não foi realizada por distorção da geometria desta cavidade.

A disfunção valvar mitral foi caracterizada com área valvar de 1.5 cm² pelo PHT e pela presença de gradiente transvalvar médio de 6 mmHg.

Yilmaz et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports Volume 10 Number 5

A valva mitral apresentava estigmas de acometimento reumático, com presença de refluxo leve ao Doppler. Ainda, foi observado a presença de uma massa com aspecto circunferencial bem delimitado no interior do átrio esquerdo (AE), com movimentação livre e de forma intermitente, sem causar obstrução fixa ao fluxo mitral.

Yilmaz et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports Volume 10 Number 5
Yilmaz et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports Volume 10 Number 5
Yilmaz et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports Volume 10 Number 5

A massa não estava aderida à parede atrial, septo interatrial ou aparato valvar mitral, sugerindo trombo livre esférico flutuante. Na janela apical 4C, as mesmas características foram observadas, com movimentos cíclicos e de forma livre dentro do AE, com contato intermitente com a valva mitral durante a diástole, sem causar obstrução dinâmica adicional à estenose valvar já existente.

Yilmaz et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports Volume 10 Number 5

A massa apresentava diâmetro estimada de 4.0 x 3.8 cm, morfologia circunferencial bem delimitada e ecogenicidade homogênea.

Yilmaz et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports Volume 10 Number 5
Yilmaz et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports Volume 10 Number 5

Ao Doppler, observava-se refluxo mitral leve. A fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) foi estimada em 50% pelo método de Simpson, havia disfunção sistólica ventricular direita e PSAP de 48 mmHg. Dupla lesão aórtica leve e refluxo tricúspide severo também foram observados.

A paciente foi submetida a cirurgia cardíaca para remoção da massa dada a baixa probabilidade de resolução espontânea com tratamento medicamentoso.

Yilmaz et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports Volume 10 Number 5

Foram realizados fechamento do apêndice atrial esquerdo e troca valvar mitral por bioprótese, além de anuloplastia tricúspide. Análise histopatológica da massa mostrou trombo organizado com fibrina, eritrócitos e reação histiocitária.

Yilmaz et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports Volume 10 Number 5

A paciente apresentou boa evolução clínica, recebendo alta hospitalar com terapia anticoagulante apropriada.

Trombo intracavitário com essas características é algo descrito como excepcionalmente raro e, de fato, mais comum entre pacientes com EMi reumática, FA e dilatação importante do AE.

Na maioria dos casos relatados, a apresentação clínica se dá por sintomas relacionados à estenose valvar ou eventos embólicos sistêmicos. Assim sendo, o diagnóstico incidental em uma paciente assintomática torna este caso ainda mais raro.

O mecanismo proposto para a formação deste tipo de trombo envolve um desprendimento de um trombo mural prévio após o qual passa a se apresentar totalmente móvel dentro da cavidade atrial. O atrito repetitivo deste trombo no endocárdio atrial e na própria valva mitral é tido como componente fundamental para que o trombo assuma o formato esférico bem delimitado.

Imagem de IA

O impacto clínico depende das dimensões do trombo. Quando pequeno, pode transpassar a valva mitral, adentrar no ventrículo esquerdo e causar embolização sistêmica. Já trombos maiores tendem a não causar embolização, porém podem obstruir o fluxo transmitral durante a diástole e causar síncope ou mesmo morte súbita.

Yilmaz et al, CASE: Cardiovascular Imaging Case Reports Volume 10 Number 5

Estudos recentes têm demonstrado que a terapia anticoagulante adequada não elimina de forma completa o risco de formação de trombo no interior do AE, sobretudo naqueles pacientes com CHA2DS2-VASC elevado, remodelamento atrial significativo e com EMi.

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