Relação Átrio Esquerdo / Ventrículo Esquerdo: aplicação no remodelamento cardíaco

As cavidades cardíacas esquerdas podem sofrer processo de remodelamento em resposta a estímulos tanto fisiológicos quanto patológicos.

Enquanto o aumento do átrio esquerdo (AE) é reconhecidamente um marcador de risco cardiovascular e indicador de progressão de doença em determinados cenários, esta alteração estrutural também pode ser consequente à adaptação induzida pela atividade física de alta intensidade, sobretudo nas modalidades de endurance.

Essa dualidade, portanto, pode representar um desafio diagnóstico e saber diferenciar uma condição adaptativa de outra patológica é fundamental para nós ecocardiografistas.

Na prática, e com certa frequência, tentamos avaliar o AE e o ventrículo esquerdo (VE) como estruturas “separadas“, quando na verdade a inter-dependência entre essas duas cavidades pode “dizer” muito mais sobre a análise funcional do coração.

A relação entre o AE e o VE (left atrioventricular ratio – LA:LV) consiste na divisão do volume sistólico final máximo do AE (LAESV) pelo volume diastólico final do VE (LVED) e pode apresentar valor diagnóstico significativo na diferenciação entre remodelamento patológico x fisiológico.

Ao avaliar o volume máximo de ambas as cavidades em fases cardíacas distintas, temos uma relação que revela a interrelação entre o AE (que funciona como reservatório e conduto para o enchimento ventricular esquerdo) e o VE, responsável pela ejeção do fluxo sanguíneo para a circulação sistêmica.

European Heart Journal – Cardiovascular Imaging (2025) 00, 1–12

Estudo cujo objetivo foi avaliar como a capacidade funcional impacta no remodelamento dessas cavidades em uma população saudável e em indivíduos não saudáveis.

Análise prospectiva, multicêntrica, observacional com 2943 participantes com idade ≥ 16 anos que foram submetidos a avaliação ecocardiográfica e teste cardiopulmonar entre abril de 2016 e janeiro de 2024.

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A coorte completa compreendeu a caracterização da relação AE:VE em todos os participantes, saudáveis ou não, sendo então divididos em dois diferentes braços: “coorte saudável” (n = 1.600) e “coorte patológica” (n = 1.343).

O grupo patológico era composto por indivíduos com (1) doença cardíaca isquêmica ou passado de infarto agudo do miocárdio (n = 614), (2) doença cardíaca congênita (n = 9), (3) doença valvar pelo menos moderada, (4) disfunção ventricular esquerda com fração de ejeção do VE < 50% (n = 237), (5) hipertensão pulmonar – PSAP em repouso ≥ 35 mmHg (n = 59), (6) insuficiência cardíaca com FE preservada, incluindo aqueles com fibrilação atrial (n = 134) e (7) fibrilação atrial isolada (n = 204).

Já o grupo “saudável” incluía 326 atletas de endurance, indivíduos sem (1) doença cardíaca estrutural significativa, (2) disfunção sistólica ou diastólica do VE e (3) arritmias. Esta coorte foi dividida em quartis (Q) baseado no pico de VO2: Q1 (n = 400) capacidade funcional mais baixa, com Q2 (n = 400), Q3 (n = 400) e Q4 (n = 400) apresentando melhores parâmetros de capacidade funcional.

Para a determinação de zonas de risco relacionadas ao valor da relação AE:VE, foram identificados os pontos de corte para um remodelamento desproporcional nos percentis 75, 90, 95 e 97, que corresponderam aos valores (arredondados) de 0.5, ≥ 0.60, ≥ 0.75, ≥ 0.85 e ≥ 0.95 respectivamente.

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Na análise de todos os participantes (coorte completa), os indivíduos no grupo “patológico” demonstraram uma relação AE:VE significativamente maior em comparação com o grupo “saudável“: mediana – 0.53 (0.38-0.75) x 0.49 (0.38-0.61), p < 0.001, o que representa um aumento médio de 10%.

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Entre as patologias avaliadas, tanto a fibrilação atrial [mediana: 0.60 (0.45-0.78)] quanto a ICFEp [mediana: 0.70 (0.51-0.88)] mostraram um aumento significativo da relação AE:VE, com um aumento de 30% comparado com o grupo de indivíduos saudáveis.

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Na análise total, houve uma relação inversa entre a capacidade funcional e a relação AE:VE.

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Na coorte “saudável” tivemos um VO2 de pico médio de 1.55 L/min equivalente a 20.1 mL/Kg/min. A idade média dos participantes foi de 60 (47-70) anos, com diminuição de acordo com cada quartil: Q1 – idade média de 71 anos, Q2 – idade média de 63 anos, Q3 – idade média de 58 anos e Q4 – idade média de 38 anos. A frequência cardíaca (FC) média foi de 70 bpm em repouso e a pressão arterial, de 136 x79 mmHg.

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Quanto ao uso de medicações, ainda nesta coorte, 10% utilizavam estatina, 9% faziam uso de terapia com IECA/BRA e 8%, betabloqueadores ou bloqueadores de canal de cálcio ou betabloqueadores. Em relação ao estilo de vida: tabagismo ativo em 4% dos participantes, 19% ex-tabagistas, 13% com diabetes e 33% com hipertensão arterial sistêmica (HAS).

A relação entre o parâmetro AE:VE e a capacidade funcional avaliada pelo VO2 máximo mostra um padrão de redução progressiva desta relação (AE:VE) nos quartis representados por aqueles com maior capacidade funcional.

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O volume atrial esquerdo indexado foi maior no Q4 (36 ml/m²: 28-46), seguido pelo Q1 (24 ml/m²: 18-29), Q3 (23 ml/m²: 17-30) e Q2 (22 ml/m²: 17-29).

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A relação AE:VE média foi de 0.49 (0.38-0.61), demonstrando que o volume máximo do VE é habitualmente o dobro do volume máximo do AE, mesmo com a mudança da capacidade funcional, uma vez que as mudanças do AE:VE foram modestas entre os quartis: o Q1 apresentou a maior relação AE:VE – 0.53, com reduções mínimas no Q2 (0.50) e no Q3 (0.45); o Q4, por sua vez, apresentou um pequeno aumento da relação (0.48) – neste grupo, os volumes absolutos tanto do AE quanto do VE foram maiores, indicando um remodelamento não patológico associado a uma melhor capacidade aeróbica.

Utilizando o corte de 34 ml/m² para o volume indexado do AE, 54.5% dos indivíduos do Q4 tinham valores aumentados, enquanto no grupo Q1, esta porcentagem foi de apenas 13.8%.

Quando aplicado um ponto de corte de 0.75 para a relação AE:VE, houve um comportamento inverso em que 17.8% dos indivíduos do Q1 apresentavam valores acima do corte contra apenas 4.2% no grupo Q4.

Entre aqueles com volume indexado do AE > 34 ml/m², a concordância com uma AE:VE aumentada (≥ 0.75) apresentou uma variabilidade, sobretudo em relação à capacidade aeróbica:

  • Q4: apenas 7% (16/218) dos participantes com volume indexado do AE aumentado apresentou também aumento da relação AE:VE;
  • Q3: 23% (15/64);
  • Q2: 55% (21/38);
  • Q1: 62% (34/55).

A figura 05 demonstra a relação entre a capacidade aeróbica e os volumes do VE, AE e a relação AE:VE.

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Uma relação linear foi observada entre AE:VE e o VO2 máximo, com aqueles com menor capacidade aeróbica apresentando maiores relações AE:VE.

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Após ajuste pela idade, sexo e valores antropométricos, essa relação linear entre AE:VE e capacidade aeróbica foi atenuada, demonstrando uma relação linear negativa fraca entre a relação AE:VE e o VO2 máximo predito.

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Para uma investigação mais avançada na análise da aplicabilidade clínica desta variável, foi realizado avaliação complementar com strain longitudinal global (SGL) do VE e a relação AE:VE em 477 pacientes.

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Tanto a relação AE:VE (r = -0.255, P < 0.001) quando o SGL (r = -0.241, P < 0.001) mostraram uma relação inversa com o VO2 máximo.

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Vale destacar que a relação AE:VE e o SGL do VE não apresentaram correlação entre si (r = 0.030, P = 0.52), sugerindo que estes parâmetros refletem aspectos distintos do remodelamento cardíaco.

A análise por regressão de multivariáveis, tanto a relação AE:VE quanto o SGL do VE permaneceram como fatores independentes preditores de capacidade aeróbica (AE:VE: β = −1.85, P < 0.001; SGL do VE: β = −0.11, P < 0.001).

Quando realizada a estratificação por sexo, houve um aumento sútil da correlação entre a relação AE:VE e o VO2 de pico (r = -0.08, P = 0.027) no sexo feminino comparado com o sexo masculino (r = -0.03, P = 0.427). Parte deste achado pode ser atribuídoa ao fato de que os homens apresentaram capacidade aeróbica significativamente maior.

Os achados demonstram, portanto, uma maior relação AE:VE em indivíduos cardiopatas, especialmente naquelas condições em que um remodelamento desproporcional do AE é esperado (FA, ICFEp).

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Assim, este parâmetro pode ser utilizado como ferramenta auxiliar na avaliação do aumento do AE em indivíduos não cardiopatas. Neste contexto, aquelas pessoas com maior/melhor capacidade aeróbica apresentaram maiores volumes do AE, porém com menores relações AE:VE. O contrário também foi verdadeiro: maiores relações AE:VE foram observadas naqueles com baixa capacidade aeróbica, podendo indicar um remodelamento patológico desta cavidade.

Os autores sugerem quem uma relação AE:VE aproximada de 0.50 represente o padrão fisiológico e que um ponto de corte de 0.75 pode ser usado para identificar aqueles com remodelamento desproporcional.

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