MECANISMOS DE ADAPTAÇÃO DO VENTRICULO DIREITO – PARTE 1.

Muito tem se publicado sobre o ventrículo direito (VD) e sobre seus mecanismos de adaptação a distintos tipos de sobrecarga: pressórica, volumétrica e ao exercício. Pouco esclarecedores, entretanto, são os motivos pelos quais essa cavidade, de baixa pressão e paredes finas, se adapta de forma tão diferente quando comparada com o ventrículo esquerdo (VE).

O VD foi praticamente ignorado pelos anatomistas e fisiologistas até 1628, quando Sir William Harvey no seu célebre “The Motu Cordis” [1] o descreve como sendo o “órgão destinado a ejetar o sangue para os pulmões”. Até pouco tempo atrás, final do século passado, raramente se falava desta cavidade, ao ponto de, em 1943, Starr et al [2] em um trabalho experimental que cauterizava o VD, provou que a supressão desta câmara não alterava em nada a função ventricular global. Trinta anos depois, seu papel foi parcialmente restaurado ao ser clinicamente reconhecido o infarto do VD, mas continuou negligenciado até a década de 1990 [3], quando começou a ser percebida a grande importância desta cavidade, tanto na fisiologia como na fisiopatologia de todas as doenças cardiocirculatórias.

Publicações recentes continuavam denominando o VD de “câmara esquecida”, devido à grande dificuldade de se entender a sua fisiologia e fisiopatologia, chegando a ser chamado “o problema dos sete sábios cegos diante de um elefante”, popular lenda indiana que ressalta a dificuldade de se entender o todo a partir da análise individual de uma das partes (Figura 1).

Figura 1. Sete sábios cegos estudando um elefante.

Por que a grande dificuldade de sua análise?

Existem vários motivos:

  • A contratilidade do VD, considerada inicialmente passiva e dependente da contração do VE, muito recentemente foi melhor compreendida devido às constatações da mecânica helicoidal de Torrent-Guasp [4].
  • A forma anatômica do VD dificulta do cálculo de volumes, portanto, da função sistólica, devendo-se apelar ao cálculo da variação de áreas, nem sempre representando a função de toda a cavidade, formada por via de entrada e via de saída bem diferenciadas.
  • Em contraste com o VE, que apresenta forma elíptica e paredes espessas, aptas para ejetar o sangue com pressão elevada contra uma resistência sistêmica também alta, o VD apresenta paredes finas e baixa resistência pulmonar, o que altera a hemodinâmica durante o ciclo cardíaco com relação do VE, com pressões menores e tempos de ejeção maiores, além de dissincronismo com relação aos intervalos do VE, como demonstrado pelos ruídos de fechamento das valvas atrioventriculares e sigmoides pela fonocardiografia. Apesar da despolarização iniciar pelas câmaras direitas, as valvas tricúspide e pulmonar fecham mais tardiamente do as valvas mitral e aórtica (Figura 2).
Figura 2. Fonocardiograma mostrando os componentes da primeira (S1) e segunda (S2) bulhas cardíacas.

Na segunda parte deste Blog iremos abordar o funcionamento do VD, utilizando as bases fisiológicas, anatômicas e as evidências embriológicas de sua adaptação.

Referências.

  1. Harvey W.  Exercitatio anatomica de motu cordis et sanguinis in animalibus. Frankfurt. W. Fitzeri, 1628. In Thomas CC Ed, Springfield, 1928, 1st Ed, pág 62.
  2. Starr I, Jeffers WA, Meade RH: The absence of conspicuous increments of venous pressure after severe damage to the right ventricle of the dog, with discussion of the relation between clinical congestive failure and heart disease. Am Heart J 1943; 26:291-301.
  3. Rigolin VH, Robiolio PA, Wilson JS, Harrison JK, Bashore TM. The forgotten chamber: The importance of the right ventricle. Catheter Cardiovasc Diag 1995; 35:18-28.
  4. Torrent-Guasp F. La estructuración macroscópica del miocárdio ventricular. Rev Esp Cardiol 1980; 33(3):265-287.
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