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Laudo: o cartão de visita do ecocardiografista (parte II)

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Nessa segunda parte de recomendações para o laudo ecocardiográfico, vamos focar em descrições das estruturas cardíacas e, por fim, no que é recomendado colocar na conclusão.

DESCRIÇÕES

Abaixo vai uma lista de links para os sites das principais sociedades que disponibilizam diretrizes específicas de avaliação das valvopatias por meio da ecocardiografia que sugiro consultar, mas lembrando também que o ECOPE dispõe de um curso específico de Valvas e Próteses, onde você pode se aperfeiçoar na sua prática em ecocardiografia transtorácica:

https://www.asecho.org/practice-clinical-resources/ase-guidelines/

https://www.escardio.org/guidelines/scientific-documents/scientific-statements/cardiovascular-imaging/

https://www.bsecho.org/Public/Public/Education/Guidelines.aspx

CONCLUSÃO

Abaixo segue uma sugestão do que conter na conclusão do laudo baseado no que seria importante na prática, como também direcionado pelas recomendações da ASE

  1. Geometria ventricular
    • Não necessariamente você precisa descrever a geometria ventricular, de acordo com a diretriz, em todos os de laudos, mas, por exemplo, na prática, considerando que boa parte dos nossos exames tem como indicação a Hipertensão Arterial Sistêmica, a presença de hipertrofia concêntrica confirma uma lesão de órgão-alvo. A avaliação da geometria segue as recomendações para quantificação de câmaras da ASE (2015)
  2. Dimensões das cavidades
    • A diretriz também não recomenda que se deve relatar os tamanhos de cavidades quando normais em todo laudo, mas, em se tratando de um achado relevante quanto alterado, deve constar.
  3. Função biventricular
    • Esse é o primeiro dos elementos que a diretriz considera essencial estar na conclusão, devendo ser descrita mesmo que normal.
  4. Função diastólica
    • A diretriz também não recomenda se relatar a função diastólica, seja do VE ou do VD, normais em todo laudo, mas, em se tratando de uma achado relevante a depender do contexto (ex.: diagnóstico de ICFEP), considero que seria importante constar mesmo que normal.
  5. Avaliação das valvas cardíacas
    • Esse é outro ponto que a diretriz considera essencial estar na conclusão, descrevendo assim em caso de normalidade: “ausência de anormalidades valvulares significativas”. Se alguma alteração, sugiro constar a alteração se significativa (por exemplo: esclerose valvar aórtica – quando presente implica em valor prognóstico – segue link para postagem sobre:https://blog.escolaecope.com.br/calcificacao-valvar-aortica-alem-da-avaliacao-subjetiva/
    • Na avaliação das valvas, a nomenclatura ganha destaque nessa última diretriz. Vale destacar alguns pontos:
      • para insuficiências valvares “menores que discreta” (jatos com exibição incompleta no Doppler espectral – entendo que, no caso dos “menores que discreto”, seja uma exibição “muito incompleta”, uma vez que os refluxos discretos podem ter o Doppler espectral falho ou incompleto também), utilizar preferencialmente o termo traçoou “pouco” em vez de “fisiológica”, “mínima” ou “trivial”.
      • Particularmente entendo que não mude algo relevante do ponto de vista prático e, historicamente, já estamos acostumados com os termos mínimo ou fisiológico, algo que o comitê de redação da diretriz relatou entender.
      • É possível entender um pouco mais do porquê dessa recomendação quando a diretriz explica que a regurgitação ‘traço’ de uma valva nativa estruturalmente normal ou de uma prótese valvar pode ser considerada normal, enquanto regurgitação leve ou maior da valva aórtica ou mitral deve ser classificada como anormal. Já no caso das valvas tricúspide ou pulmonar nativas estruturalmente normais, regurgitação leve pode ser considerada um achado funcional normal (fisiológico) de acordo com a diretriz.
      • Enfim, a diretriz recomenda que, para regurgitação valvar, o laudo deve incluir as opções: não (nenhuma), traço, leve, moderada e grave. Como particularmente acho estranho escrever regurgitação traço, vou preferir manter regurgitação mínima. Talvez seja uma questão de tradução mas que, no fim das contas, traço ou mínimo refletem um refluxo “menor que discreto”
      • As classificações ‘leve a moderada’ e ‘moderada a grave’ para regurgitação ou estenose valvar devem ser usadas com moderação quando os dados forem insuficientes para atribuir uma classificação específica.
      • Para próteses valvares, o laudo deve mencionar o tipo, tamanho – isso ganha importância numa realidade que pouquíssimos pacientes levam documentos que comprovem esses dados de importância fundamental na avaliação de próteses.
  6. Comparação com exames anteriores
    • A comparação passou a ser considerada um item essencial nessa nova diretriz (ex.: se houve diagnóstico de ICFER em exame anterior, houve tratamento adequado e melhora da FE, é interessante fazer um relato comparativo; outro exemplo pode ser nos casos em que se usa o SGL no contexto dos tratamento oncológicos potencialmente cardiotóxicos, além de reavaliação de trombose de próteses após anticoagulação etc.)

Em resumo, a conclusão deve conter frases claras e diretas ou em tópicos que possam ser interpretados de forma independente e não deve simplesmente reproduzir seções inteiras do corpo do relatório. Ele precisa destacar achados importantes positivos ou negativos relevantes que respondam às questões clínicas relacionadas ao estudo. Por exemplo, num exame para pesquisa de sinais de endocardite infecciosa, caso não hajam sinais sugestivos, explicitar que não foram evidenciadas vegetações ou abscessos. Se houverem achados críticos, a forma exata de comunicação e documentação do resultado crítico a equipe assistente fica a critério de cada laboratório de ecocardiografia.

Pontos que considero mais importantes da diretriz ASE 2025

Para finalizar, o laudo do ecocardiografista é o que vai orientar conduta, diagnóstico e prognóstico dos pacientes em diversas condições. É por meio do laudo que se comunica “a foto” do momento do paciente e é, por meio de exames seriados, que se faz “o filme” da evolução natural da doença ou do resultado do tratamento. Portanto, em se tratando da ecocardiografia ser um exame dinâmico e rico em variantes, todo dado deve ser informado de forma coerente, respeitando o contexto da análise de acordo com cada situação.

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