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Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026: Estenose Mitral

Outro importante documento recentemente publicado no Congresso Brasileiro de Cardiologia foi a nova Diretriz Brasileira de Valvopatias 2026. Vamos, então, trazer pontos relevantes do ponto de vista da ecocardiografia.

Arq Bras Cardiol. 2026; 123(10):e20260796

De acordo com os dados epidemiológicos mais recentes, existe um aumento da prevalência de doenças valvares degenerativas no Brasil, principalmente em indivíduos idosos. Por outro lado, a doença cardíaca reumática permanece como a principal etiologia de doença valvar no país, com destaque para os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

Dessa forma, o cenário etiológico brasileiro se distingue dos demais por apresentar similaridades tanto com países desenvolvidos quanto com aqueles de baixa renda. Assim, devido a tal perfil, são necessárias recomendações específicas para a população brasileira.

Os passos sequenciais que norteiam o diagnóstico anatômico, etiológico e funcional, definindo a conduta alinhada às melhores práticas, foram mantidos.

Arq Bras Cardiol. 2026; 123(10):e20260796

Estenose Mitral

A avaliação se inicia na definição da importância anatômica da valvopatia, a partir do exame físico. Nos pacientes com estenose mitral (EMi) importante as alterações propedêuticas são mais evidentes e com surgimento de alterações eletrocardiográficas e radiológicas.

Arq Bras Cardiol. 2026; 123(10):e20260796

A ecocardiografia é o principal exame complementar para a avaliação anatômica da valva mitral, sendo fundamental para a definição da gravidade, da etiologia, das repercussões hemodinâmicas e dos parâmetros que estão relacionados à chance de sucesso das intervenções, com avaliação individualizada de cada componente da valva (anel valvar, cúspides valvares, aparato subvalvar).

Os parâmetros que classificam a gravidade são (1) área valvar – que pode ser aferida pela planimetria, pelo tempo de meia pressão (PHT) ou pela equação de continuidade – e (2) o gradiente diastólico transvalvar mitral.

Arq Bras Cardiol. 2026; 123(10):e20260796

Por ser uma medida direta do orifício valvar, a planimetria é menos influenciada por fatores como complacência atrial e ventricular, fluxo transvalvar, status volêmico e tempo de enchimento diastólico, sendo o método preferível para a avaliação da área valvar na EMi, quando a janela ecocardiográfica permitir.

Tem-se enfatizado cada vez mais a importância da ecocardiografia tridimensional na avaliação detalhada da anatomia valvar.

No caso da estenose mitral, diversos trabalhos têm demonstrado o papel relevante desse método diagnóstico tanto na avaliação do comprometimento valvar relacionado à doença reumática quanto na determinação da taxa de sucesso após os procedimentos intervencionistas.

A ecocardiografia transesofágica também tem um papel importante nessa avaliação, sobretudo para os casos em que a janela acústica é limitada ou em caso de necessidade de um esclarecimento adicional em relação à etiologia da valvopatia.

Além disso, é o exame de escolha na avaliação dos pacientes que serão submetidos a valvoplastia mital por cateter-balão, devendo ser realizado antes do procedimento para excluir a presença de trombos, o que contraindicaria a realização da intervenção.

Nos casos de discordância entre os achados clínicos e ecocardiográficos, é possível realizar o estudo hemodinâmico invasivo para a definição da gravidade anatômica e da repercussão hemodinâmica da estenose mitral por meio da medida direta da pressão atrial esquerda e ventricular esquerda, e do cálculo do gradiente diastólico transvalvar mitral, gradiente transpulmonar e da resistência vascular pulmonar.

AVALIAÇÃO ETIOLÓGICA: do ponto de vista epidemiológico, a febre reumática segue como a principal etiologia da estenose mitral no mundo, afetando crianças e adultos jovens, sobretudo em países em desenvolvimento

Em 2020, a doença reumática acometia cerca de 40,5 milhões de pessoas no mundo, e estima-se que a taxa de prevalência da doença reumática aumente até 2030, chegando a 48 milhões de casos. Nos países desenvolvidos, a incidência seguirá em declínio na próxima década.

Atualmente, a EMi é responsável por cerca de 12% do total das valvopatias nos países europeus e apresenta uma prevalência de 0,1% nos EUA. Nesses países, a predominância dos casos ocorre em pacientes idosos e em imigrantes jovens.

Além da etiologia reumática, cresce proporcionalmente o número de pacientes portadores de estenose mitral degenerativa/calcífica, sobretudo na população idosa, acima de 75 anos.

A lesão valvar é ocasionada pela calcificação do anel mitral (MAC) que se inicia pela parte posterior do anel e pode se estender por toda sua circunferência, alcançando a base dos folhetos valvares, resultando em restrição da mobilidade das cúspides e, consequentemente, do esvaziamento atrial. Ao contrário do que se observa na estenose reumática, o aparato subvalvar e as comissuras não são acometidas pela calcificação.

A MAC é, também, um marcador de maior gravidade da doença cardiovascular, associando-se a um maior risco de fibrilação atrial (FA), acidente vascular cerebral (AVC) e mortalidade. É mais prevalente nas mulheres e está associada a comorbidades como HAS, DM e doença renal crônica (DRC), podendo também ocorrer após radioterapia para tratamento oncológico.

Ela, a MAC, acomete em torno de 23% dos idosos e, entre esses pacientes, cerca de 2-3% evoluem com EMi, sendo mais frequente a apresentação como dupla lesão mitral, associada à insuficiência importante,

Outras causas raras de EMi incluem (1) doenças reumatológicas – LES, artrite reumatóide – (2) doenças de depósitos – doença de Fabry – (3) doença de Whipple, (4) terapia com metisergida ou anorexígenos, (5) síndrome carcinóide ou (6) alterações congênitas (valva mitral em paraquedas, hipoplasia da valva mitral).

Arq Bras Cardiol. 2026; 123(10):e20260796
Imagem de IA

COMPLICADORES: paralelamente à avaliação dos sintomas, o acompanhamento dos pacientes deverá incluir também a busca por possíveis complicadores.

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No caso da EMi importante, as alterações relevantes são a presença de (1) hipertensão pulmonar significativa – PSAP ≥ 50 mmHg – e (2) FA.

Para pacientes com EMi importante, em que há dúvidas da presença de sintomas relacionados à valvopatia, podemos realizar a ecocardiografia com estresse físico ou farmacológico. A elevação da PSAP para níveis maiores ou iguais a 60 mmHg durante o estresse sugere repercussão hemodinâmica e pode indicar necessidade de intervenção.

Parâmetros ecocardiográficos funcionais como deformação atrial esquerda se correlacionam com a complacência atrial e a capacidade funcional dos pacientes com EMi. A redução do strain atrial está associada ao aparecimento de sintomas e é um fator preditor de FA em pacientes assintomáticos com EMi moderada a importante, podendo corroborar os demais dados de gravidade para avaliação de intervenção. Contudo, sua utilização ainda é limitada.

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TIPOS DE INTERVENÇÃO: a valvoplastia mitral por cateter-balão é o tratamento de escolha para os pacientes com EMi de etiologia reumática, nos quais predominam a calcificação e fusão comissurais, desde que apresentem anatomia favorável (estratificada pelo escore de Wilkins-Block) e na ausência de contraindicações (insuficiência moderada ou importante e trombo no átrio esquerdo).

O escore de Wilkins-Block consiste na avaliação ecocardiográfica da valva mitral com ênfase na descrição dos aspectos estruturais. 04 parâmetros são considerados: (1) mobilidade dos folhetos, (2) espessamento valvar, (3) grau de calcificação e (4) acometimento do aparato subvalvar.

Arq Bras Cardiol. 2026; 123(10):e20260796

Estudos demonstram que pacientes com escore ≤ 8 apresentam maior taxa de sucesso e menor taxa de eventos adversos para a valvoplastia por cateter-balão, e, portanto, pacientes com escore ≤ 8 são candidatos a esta modalidade, na ausência de contraindicações.

Nos pacientes que apresentem anatomia desfavorável (escore > 10) ou contraindicações ao procedimento percutâneo, o tratamento cirúrgico passa a ser a opção terapêutica de esco

A realização do procedimento percutâneo pode ser considerada em pacientes selecionados, como gestantes ou pacientes de alto risco cirúrgico, com escore de Wilkins entre 9-10, desde que tenham pontuação máxima de 2 nos itens calcificação e aparelho subvalvar.

ACOMPANHAMENTO INDIVIDUALIZADO: no pacientes com EMi não importante, isto é, com área valvar > 1,5 cm², a recomendação é a reavaliação clínica e ecocardiográfica anual.

O paciente com EMi importante assintomático e sem complicadores, por sua vez, deverá ser reavaliado em intervalos menores de tempo, habitualmente a cada 6-12 meses.

Arq Bras Cardiol. 2026; 123(10):e20260796
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