Strain Global Longitudinal: existe limite inferior de normalidade?

Um dos questionamentos mais frequentes em relação ao strain global longitudinal (SGL) é sobre um limite inferior de normalidade e sua variação entre os diferentes softwares comercializados atualmente.

Apesar de ser um questionamento muito válido e pertinente, nós da ECOPE temos um entendimento mais amplo, em que o padrão e o contexto clínico em que se aplica a análise do strain são muito mais importantes do que apenas a definição baseada em valores de corte. Vamos exemplificar:

Cenário 01: paciente praticante de atividade física de alta intensidade, modalidade de endurance, cujo o exame mostra um padrão de adaptação excêntrica e um SGL 16,7%, com parâmetros de diástole preservados e eficiência global mantida em repouso e durante o esforço pela análise do trabalho miocárdico NÃO TEM disfunção sistólica apesar de um strain relativamente mais reduzido.

Cenário 02: paciente hipertenso não controlado, SGL 24,6%, com padrão compatível com hiperativação adrenérgica, ou seja, aumento da torção apical e com trabalho miocárdico aumentado nos segmentos apicais em repouso APRESENTA UM PADRÃO ANORMAL apesar de um strain com valor > 18%.

Contudo, é natural que tenhamos referências, uma vez que o método deve ser utilizado de forma uniforme e que seja replicável. Trago, portanto, uma meta-análise, classificada como “clinical validation study“, publicada no JACC agora em 2025 sobre a determinação de um limite inferior de normalidade do strain global longitudinal.

JACC Cardiovasc Imaging. 2025;18:525–536

Estudo cujo objetivo foi (1) identificar o limite inferior de normalidade do SGL para cada software atualmente comercializado, bem como (2) validar a relevância prognóstica deste ponto de corte em população idosa (≥ 80 anos de idade) e em pacientes ambulatoriais assintomáticos (com fração de ejeção preservada) com risco de desenvolver insuficiência cardíaca (IC).

Meta-análise incluindo estudos indexados no PubMed nos quais foram analisados o SGL (≥ 16 segmentos do ventrículo esquerdo) em indivíduos saudáveis (≥ 18 anos de idade). Aqueles estudos com < 120 participantes adultos foram excluídos. O foco foram estudos publicados depois da publicação do 2015 Joint European Association of Cardiovascular Imaging/ASE Industry Task Force for LV Strain Standardization.

Com o propósito de validar um ponto de corte para o limite inferior de normalidade do SGL identificado na meta-análise, uma coorte com > 2.000 adultos saudáveis foi realizada.

JACC Cardiovasc Imaging. 2025;18:525–536

Uma análise com indivíduos saudáveis com fração de ejeção (FE) preservada (mulheres: FE ≥ 54%; homens: FE ≥ 52%) cujo strain foi realizado pelo software EchoPac (versão 113, GE HeatlhCare).

Uma outra análise foi realizada com o objetivo para determinar o valor prognóstico do valor encontrado para o limite inferior de normalidade em pacientes idosos e em pacientes ambulatoriais assintomáticos com FE preservada (mulheres: FE ≥ 54%; homens: FE ≥ 52%), mas sob risco de desenvolver IC (portadores de hipertensão arterial, diabetes ou com histórico de doença arterial coronária).

Nessas duas análises, pacientes com fibrilação atrial (FA), doença valvar significativa ou doenças pulmonar, renal ou hepática foram excluídos.

A relevância prognóstica foi determinada pelo risco de hospitalização por IC (IC aguda ou descompensada). Na análise de pacientes idosos, o risco de IC foi avaliado sobre um período de 02 anos. Já no braço dos pacientes assintomáticos ambulatoriais e com fatores de risco para IC, o risco de insuficiência cardíaca foi avaliado sobre um período de 06 anos.

LIMITE INFERIO DE NORMALIDADE: o limite inferior de normalidade do SGL para os softwares EchoPac (GE), TomTec e QLab (Philips) foi de 16% (valor absoluto).

JACC Cardiovasc Imaging. 2025;18:525–536
JACC Cardiovasc Imaging. 2025;18:525–536

Em relação a análise por camada endocárdica específica, o limite inferior de normalidade, pela análise através do EchoPac, foi de 16% quando realizada pelo strain convencional, contudo quando optado pela análise da camada endocárdica, o limite inferior encontrado foi de 19%. Já para TomTec e QLab, o valor foi de 16% para ambos na análise convencional (poucos estudos fizeram a análise por camada).

Os dados de estudos utilizando softwares da Toshiba/Canon, Siemens, Mindray e Us2.ai foram escassos e, portanto, não foram considerados para a determinação de um limite inferior de normalidade destes fabricantes.

JACC Cardiovasc Imaging. 2025;18:525–536

Em relação a análise de subgrupos, não houve diferenças clínicas significativas de acordo com sexo e entre indivíduos jovens e indivíduos idosos.

Na análise de indivíduos saudáveis (2,217 pacientes), os resultados foram similares daqueles encontrados na meta-análise. O limite inferior de normalidade também foi de 16%, sem diferenças entre sexo e idade (jovens x idosos).

JACC Cardiovasc Imaging. 2025;18:525–536

Quando avaliados indivíduos saudáveis, menos de 2% apresentaram SGL < 16%.

RELEVÂNCIA PROGNÓSTICA: para validar o impacto prognóstico deste valor (<16%), em indivíduos idosos e em pacientes assintomáticos sob risco de desenvolver IC, uma coorte com 159 pacientes com idade ≥ 80 anos e outra com 667 pacientes assintomáticos e com FE preservada foram avaliadas.

JACC Cardiovasc Imaging. 2025;18:525–536

Um SGL < 16% se associou de forma significativa com o aumento do risco de hospitalização por IC em pacientes idosos em 02 anos (OR 5.1, 95%IC: 1.5-17.0).

JACC Cardiovasc Imaging. 2025;18:525–536

Ainda, um valor anormal do SGL (<16%) demonstrou um valor prognóstico incremental em relação a valores anormais de parâmetros ecocardiográficos convencionais, como velocidade da regurgitação tricúspide, volume atrial indexado, E/e´ média em ambas coortes.

JACC Cardiovasc Imaging. 2025;18:525–536
JACC Cardiovasc Imaging. 2025;18:525–536

Portanto, um limite inferior de normalidade de 16% para o SGL se associou, de forma significativa, ao aumento do risco de hospitalização por IC em 02 anos (pacientes idosos) e 06 anos (indivíduos saudáveis sob risco de IC).

JACC Cardiovasc Imaging. 2025;18:525–536
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