Trajeto coronário intracavitário é uma condição rara e se enquadra dentro dos subtipos benignos de anomalia de artérias coronárias, com prevalência estimada em < 0,1% dos pacientes adultos que realizam angiotomografia.
Existem dois tipos descritos na literatura, a citar (1) curso intra-atrial, em que um seguimento da artéria coronária direita (CD) apresenta curso dentro da cavidade atrial direita e (2) curso intra-ventricular, com a artéria descendente anterior (DA) possuindo trajeto dentro do ventrículo direito (VD).
A maior parte dos casos é diagnosticada como achado incidental da angiotomografia de artérias coronária, sendo a descrição ecocardiográfica ainda não bem documentada.
Trago mais um caso do periódico CASE no qual o diagnóstico de trajeto coronário anômalo intra-atrial foi observado pela ecocardiografia e posteriormente confirmado através da angiotomografia (AngioTC).
Homem, 76 anos de idade, com histórico de hipertensão arterial sistêmica (HAS), dislipidemia e dor torácica intermitente, admitido no pronto-socorro com queixa de fadiga, dor torácica opressiva e dispneia.
Avaliação inicial descartou síndrome coronária aguda ou tromboembolismo pulmonar. Dado o histórico de angina de longa data, foi optado por realizar estratificação não invasiva com teste funcional e ecocardiograma transtorácico.
O ecocardiograma demonstrou câmaras cardíacas com diâmetros preservados, fração de ejeção preservada e ausência de déficit contrátil segmentar.
Foi observado, porém, na janela apical 4C, um padrão distinto de duas linhas ecogênicas em paralelo com curso intra-atrial, não correspondendo a nenhuma estrutura anatômica habitual desta cavidade.
O achado, inicialmente descrito como “sinal do trilho do trem” (train track sign) pela equipe assistente, levantou suspeitas de trajeto anômalo coronário motivando, portanto, a solicitação de AngioTC de artérias coronárias.
O exame mostrou origens normais tanto da CD quanto da coronária esquerda, com presença de lesão aterosclerótica com estenose moderada na DA, bem como confirmou a suspeita de trajeto anômalo da CD, com o seguimento médio apresentando curso intra-atrial transversal de 3.5 cm.
A reconstrução 3D ilustrou, de forma muito didática, o trajeto intracavitário da coronária direita.
Posteriormente, o paciente foi submetido a cateterismo cardíaco que confirmou a presença de lesão moderada no terço médio da DA enquanto que a CD não apresentava lesões ateroscleróticas. O paciente recebeu alta sob tratamento clínico direcionado.
Artérias coronárias intracavitárias constituem um subtipo extremamente raro de anomalia de artérias coronárias, sendo bem menos frequente que outras apresentações como ponte miocárdica e origem anômala de coronária a partir de seio coronário oposto.
A literatura médica se limita a poucos relatos de casos e pequenas séries de casos relacionados a estudos de tomografia cardíaca. É importante ressaltar que não existe nenhuma evidência associado este tipo de anomalia com maior risco aterosclerótico ou de morte súbita cardíaca.
Apesar de ser uma condição benigna, sua relevância ganha destaque na avaliação pré-procedimento, pois este tipo anormal de trajeto pode levar a complicações iatrogênicas durante cateterismo de câmaras direitas e implante de marcapasso/cardiodesfibrilador, ou até mesmo durante procedimentos de ablação por radiofrequência.
Como dito anteriormente, esta condição é praticamente um diagnóstico exclusivo da AngioTC de coronárias, com quase nenhuma descrição ecocardiográfica na literatura.
Neste caso específico, o achado não habitual de duas linhas ecogênicas em paralelo (à semelhança do aspecto anatômico do RAC Sign) localizadas no interior do AD levantou a suspeita diagnóstica, um padrão denominado pelos autores de “train track sign”.
Graduado em medicina pela Universidade Potiguar (UnP). Possui residência em Clínica Médica pelo Hospital Universitário Onofre Lopes – HUOL (UFRN) e em Cardiologia pelo Procape – UPE. Porta o título de especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e é pós-graduado em Ecocardiografia, pela ECOPE.
