Apesar de não ser uma tecnologia tão recente assim, a análise da deformação miocárdica através da técnica de speckle tracking vem ganhando cada dia mais importância, sobretudo na utilização do strain cardíaco para a detecção de diferentes doenças cardíacas em fases precoces.
Não à toa, diversas sociedades médicas têm divulgado documentos específicos, com recomendações para o uso dessa importante ferramenta ecocardiográfica.
Acontece, porém, que infelizmente ainda há uma percepção equivocada de que o strain é limitado à análise do Bull´s eye, fazendo com que essa ferramenta seja subvalorizada e, portanto, não aplicada de forma rotineira nos laboratórios de ecocardiografia.
Hoje resolvi trazer alguns conceitos básicos fundamentais para quem deseja entender, de uma forma mais ampla (além do Bull´s eye) como interpretar os achados através do estudo da deformação miocárdica. Para tanto, utilizarei como referência a nova edição do livro Aplicações do Strain Cardíaco, de autoria do Prof. Castillo e em colaboração com o Prof. João Giffoni, ambos da ECOPE, lançado agora no congresso do DIC 2024.
Devido à disposição helicoidal das fibras cardíacas e pelo fato do miocárdio ser um meio inelástico incompressível, o músculo cardíaco tem a capacidade de mudar de forma sem alterar o seu volume.
Nesse meio elástico incompressível, portaanto, o deslocamento de um ponto permite determinar a deformação. Para tal, analisa-se uma pequena região do miocárdio e se determina o seu deslocamento.
Perceba que, durante o ciclo cardíaco, a região analisada (figura acima) descreve uma trajetória que inicia e termina sempre no mesmo ponto, descrevendo um “loop“.
Portanto, quando avaliamos o miocárdio com o ecocardiograma, observamos o encurtamento em uma direção e o espessamento em outra direção. Se colocarmos esse pequeno segmento miocárdio dentro de um sistema de coordenadas ortogonais, poderemos representar a deformação por meio de traçados: eixos Y e X.
Durante a sístole, o septo interventricular encurta-se no sentido base-ápice, visto pela projeção Y no sistema ortogonal. Esse encurtamento é representado por um traçado abaixo da linha de base.
Simultaneamente, o mesmo segmento aumenta a espessura no sentido transversal e, observando desde a projeção ortogonal X, é representado por um traçado acima da linha de base.
Temos, portanto, o eixo Y representando o encurtamento sistólico das paredes do ventrículo esquerdo (VE) no sentido base-ápice que corresponde ao strain longitudinal do VE e que deve ser avaliado nos cortes apicais 2C, 2C e 3C.
Esta avaliação da deformação é demonstrada, na ecocardiografia bidimensional, através de um mapa polar que representa os diferentes segmentos miocárdicos (mais frequentemente, mapa com 17 segmentos) dispostos concentricamente onde aparece o valor da deformação de cada segmento. É o famoso Bull´s eye.
Já o eixo X avalia o espessamento das paredes e corresponde à denominada deformação radial (strain radial), devendo ser utilizados 3 cortes do eixo curto nos planos da (1) valva mitral, dos (2) músculos papilares e ao (3) nível apical.
Existe ainda o eixo X, que avalia a diminuição sistólica da circunferência do VE, tangencial às paredes, e é denominado strain circunferencial. Para esta análise devem ser obtidos os mesmo 3 cortes do eixo transversal do VE.
Uma outra avaliação que pode ser realizada pelo strain cardíaco a partir do strain circunferencial é a rotação e o twisting. Aqui, precisamos lembrar do conceito de que a base roda no sentido horário durante a sístole e a região apical em sentido anti-horário devido ao mecanismo de torção miocárdica, decorrente da contração das miofibrilas dispostas em camadas cruzadas.
Essa rotação é determinada em graus e, por convenção, a rotação em sentido horário posiciona-se abaixo da linha de base e recebe um sinal negativo. A rotação apical é posicionada acima da linha de base.
O twist ou torção é obtido, portanto, pela subtração algébrica da rotação apical menos a rotação basal (Twist = rotação apical – (-rotação basal).
Vimos, portanto, conceitos básicos para o entendimento do strain longitudinal, strain radial e o strain circunferencial.
Se gostou do conteúdo e ficou interessado em adquirir a nova edição do livro do Prof. Castillo, deixarei aqui o link para compra – é só clicar na imagem abaixo.
Graduado em medicina pela Universidade Potiguar (UnP). Possui residência em Clínica Médica, pelo Hospital Universitário Onofre Lopes – HUOL (UFRN), e em Cardiologia, pelo Procape – UPE. Porta o título de especialista em Cardiologia, pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). E é pós-graduado em Ecocardiografia, pela ECOPE.