A estenose aórtica (EAo) supravalvar é uma causa incomum de estenose em que ocorre estreitamento distal à valva aórtica (VAo). Na maior parte dos casos, constitui condição congênita e, classicamente, é dividida em 03 subtipos morfológicos: (1) em ampulheta, (2) membranosa e (3) hipoplasia de arco aórtico.
Embora a etiologia congênita se associe à síndromes genéticas, como Willians-Beuren, esta condição pode ter origem iatrogênica como complicação cirúrgica.
Vamos exemplificar …
CASO 01: Mulher, 55 anos de idade, com quadro de dispneia aos esforços. Sem comorbidades conhecidas.
Ecocardiograma demonstrou cavidade ventricular esquerda com diâmetros normais e função sistólica preservada, contudo notava-se aumento da velocidade de pico e dos gradientes transaórticos, além de espessamento da VAo.
A área valvar aórtica foi estimada em 0,68 cm² (0.4 cm²/m²) pela equação de continuidade, com DVI de 0,25. Havia também refluxo aórtico leve a moderado. A raiz de aorta e a aorta ascendente apresentavam diâmetros normais.
Tomografia computadorizada (TC) mostrou valva aórtica trivalvular, com espessamento dos folhetos e abertura reduzida, além de discreto estreitamento acima da junção sinotubular. O diâmetro mínimo e área no nível do estreitamente supravalvar foram de 11.7 mm e 1.4 cm², respectivamente.
O diâmetro da junção sinotubular era de 16,3 mm e não haviam sinais de coarctação ou outras anomalias congênitas. As artérias coronárias não apresentavam obstrução significativa.
A paciente, portanto, apresentava indicação classe I para troca valvar aórtica e foi submetida ao procedimento de Ross.
CASO 02: homem, 41 anos de idade, com histórico de doença arterial coronária e passado de reparo valvar mitral robótico por insuficiência mitral (IMi) importante secundário a prolapso valvar. Ao final do procedimento, o fechamento do sítio da cânula de cardioplegia na aorta ascendente necessitou vários reparos de sutura em bolsa para hemostasia adequada.
Ecocardiograma realizado imediatamente após a cirurgia não documentou nenhuma anormalidade supravalvar. Contudo, exame de controle realizado após 06 meses demonstrou um estreitamento luminal na aorta ascendente de 1.90 cm, acima da junção sinotubular, coincidindo com o local de raparo pós cardioplegia.
A avaliação transesofágica mostrou fluxo turbulento na aorta ascendente, com velocidade máxima de 3.3 m/s e gradientes máximo de 44 mmHg e médio de 23 mmHg. O diâmetro da aorta ascendente na região do estreitamento foi estimado em 1.3 cm. A VAo apresentava-se com morfologia preservada e sem evidências de estenose valvar.
TC confirmou os achados da ecocardiografia, com a mínima área da região de estreitamento de 1.3 cm². Como o paciente estava assintomático e a gravidade da estenose iatrogênica era moderada, optou-se por uma estratégia conservadora e seguimento ecocardiográfico a cada 06 meses.
Como visto, embora a etiologia congênita seja a principal causa de EAo supravalvar, outras condições menos frequentes podem ser possíveis, com destaque para a iatrogênica. Há de se ressaltar a importância a avaliação multimodalidade para o correto diagnóstico e adequada definição terapêutica.
Graduado em medicina pela Universidade Potiguar (UnP). Possui residência em Clínica Médica pelo Hospital Universitário Onofre Lopes – HUOL (UFRN) e em Cardiologia pelo Procape – UPE. Porta o título de especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e é pós-graduado em Ecocardiografia, pela ECOPE.
