Os recentes avanços no tratamento de cardiomiopatia hipertrófica (CMPH), sobretudo a partir da introdução dos inibidores de miosina (Mavacamten e Aficamten), fazem com que nós ecocardiografistas tenhamos que saber reconhecer os parâmetros de resposta terapêutica.
A literatura médica já tem demonstrado que estes agentes melhoram a obstrução dinâmica da via de saída do ventrículo esquerdo (VSVE), sintomas e marcadores de disfunção miocárdica nos pacientes tanto com a forma obstrutiva da CMPH quanto naqueles com o fenótipo não obstrutivo.
A ecocardiografia, neste contexto, continua a desempenhar papel fundamental e a análise da presença de obstrução dinâmica da VSVE é ponto chave. A melhora do componente obstrutivo já foi documentada em diferentes trials e meta-análises. O impacto desta terapia nos demais parâmetros ecocardiográficos também deve ser analisado, motivo pelo qual trago uma revisão sistemática que resume os efeitos dos inibidores de miosina além da obstrução da VSVE.
Um total de 457 estudos foram obtidos a partir do Pubmed, Cochrane e Embase, dentro os quais apenas 10 estudos contemplavam o objetivo desta meta-análise.
Ao todo, 938 pacientes foram avaliados, sendo a maior parte deles do sexo masculino, com média de idade entre 51-60 anos. Todos os pacientes apresentavam espessura diastólica das paredes e índice de massa ventricular esquerda acima da faixa de normalidade (elementar, meu caro !!!), com fração de ejeção (FE) do ventrículo esquerdo (VE) variando entre 67.9-77.8%.
Algumas séries reportaram a redução da espessura diastólica das paredes do VE como marcador de remodelamento reverso, enquanto que outras consideraram a redução do índice de massa ventricular esquerda.
Foi observado uma redução significativa, após terapia com inibidores de miosina, nos diâmetros das paredes do VE comparando com aqueles pacientes do grupo controle (MD: – 1.77, 95%IC: -3.30 a -0.23, p = 0.0240).
O resultado agregado também revelou uma redução no índice de massa desses pacientes (MD: -18.15, 95%IC: -32,65 a -3,65, p = 0.0141)
A análise também mostrou uma redução significativa da espessura diastólica máxima das paredes do VE ao longo do tratamento (MD: -1.16, 95%IC: -1.51 a -0.81, p < 0.0001), sugerindo que os inibidores de miosina também reduzem o índice de massa desta cavidade (MD: -12.05, 95%IC: – 16.46 a -7.63, p < 0.0001)
Em relação à FEVE, Desai et al e Hegde et al. demonstraram uma redução estatisticamente significativa deste parâmetros após o tratamento, enquanto que Tian et al., mostrou apenas um leve aumento, não significativo do ponto de vista estatístico.
De forma geral, observou-se uma diminuição significativa da FEVE (MD: -3.22, 95%IC: -5.60 a -0.85, p = 0.0078), não havendo diferenças em relação a duração do tratamento (quando este foi diferente nos estudos analisados).
Outros parâmetros que mostraram melhora foram o volume indexado do átrio esquerdo – AE (MD: -5.75, 95%IC: -7.87 a -3.64, p 0.0001), velocidade das ondas e´ lateral (MD: 1.56, 95%IC: 0.85 a 2.26, p < 0.0001), e´ septal (MD: 0.81, 95%IC: 0.31 a 1.31, p = 0.0016), bem como das relações E/e´ lateral e E/e´ septal.
Os principais achados, segundo os autores, são (1) que o tratamento com inibidores da miosina melhora significativamente a estrutura do VE ao demonstrar diminuição da espessura diastólica das paredes e do índice de massa ventricular esquerdo, bem como (2) influencia de forma positiva os parâmetros de função diastólica.
Vale ressaltar que este tratamento pode reduzir a FEVE, devendo, portanto, haver um acompanhamento da função do VE durante o protocolo da medicação. Alguns protocolos sugerem a descontinuação do uso da medicação quando há rápida redução deste parâmetro, devendo os agentes inibidores de miosina serem iniciados apenas nos casos com FEVE > 55%.
Nos casos em que há queda da FE para < 50%, a orientação é de interrupção do tratamento, com avaliação ecocardiográfica a cada 04 semanas e reinicio da medicação caso haja recuperação para FE > 50%.
Graduado em medicina pela Universidade Potiguar (UnP). Possui residência em Clínica Médica pelo Hospital Universitário Onofre Lopes – HUOL (UFRN) e em Cardiologia pelo Procape – UPE. Porta o título de especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e é pós-graduado em Ecocardiografia, pela ECOPE.
