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Ecocardiografia nas Doenças Sistêmicas: acromegalia e a avaliação com recursos avançados

A acromegalia é uma condição rara caracterizada por secreção excessiva de hormônio do crescimento (GH) e IGF-1. Embora os dados mais recentes tenham demonstrando uma redução de 44% para 23% de morte por causas cardiovasculares entre pacientes com esta doença, ainda assim as doenças cardíacas continuam sendo uma das principais causas de morte nesta população, ficando atrás apenas de tumores malignos.

As complicações cardiovasculares incluem cardiomiopatias (59%), insuficiência cardíaca (11%) e doença coronária (6%). Nos pacientes com acromegalia, o dano cardiovascular se inicia através de alterações estruturais como a hipertrofia ventricular esquerda (HVE), disfunção diastólica e, posteriormente, dilatação cavitária com queda da função sistólica. Os níveis de GH/IGF-1 são considerados os fatores principais relacionados ao dano miocárdico.

Naqueles pacientes com a doença em fase ativa (níveis elevados de IGF-1 ou supressão insuficiente de GH pelo teste oral de tolerância à glicose 75g), os danos cardíacos são mais pronunciados, com HVE e disfunção diastólica sendo os achados mais comumente encontrados pela ecocardiografia.

Com a progressão do dano miocárdico pode haver disfunção sistólica e isquemia miocárdica, contribuindo para desfechos adversos tais como doença arterial coronária e insuficiência cardíaca (IC).

Alterações subclínica da função miocárdica em pacientes com acromegalia são potencialmente reversíveis com tratamento, reforçando assim a importância do diagnóstico precoce e intervenção imediata na tentativa de prevenir dano irreversível e eventos adversos.

Porém, sabemos que os métodos convencionais para avaliar disfunção sistólica, sobretudo a fração de ejeção (FE), não são sensíveis para a detecção de disfunção sistólica subclínica e, portanto, costumam estar alterados apenas em fases mais avançadas da doença, o que, por sua vez, pode atrasar o diagnóstico e a instituição de terapêutica adequada.

Assim sendo, como a ecocardiografia avançada poderia ajudar neste cenário?

R Huang et al., Endocrine Connections (2026) 15 e250478

Estudo com 34 pacientes portadores de acromegalia e em fase ativa da doença, comparados com grupo controle de 27 indivíduos saudáveis e pareados de acordo com idade, sexo, peso, altura, índice de massa corporal, cujo o objetivo foi avaliar a capacidade do strain e do trabalho miocárdico como ferramentas sensíveis para detectar disfunção miocárdica subclínica.

Pacientes, de ambos os grupos, com (1) doença arterial coronária, (2) insuficiência cardíaca, (3) arritmias, (4) acidente vascular encefálico/acidente isquêmico transitório, (5) doença arterial periférica, (6) doença renal crônica, (7) doenças respiratórias e (8) gestantes foram excluídos do estudo.

Um total de 54 indivíduos foram avaliados, sendo 27 no grupo de pacientes com acromegalia em fase ativa e outros 27 no grupo controle. A idade média entre os pacientes com acromegalia foi de 40.22 ± 11.14 anos, entre os quais 55.5% eram do sexo feminino.

R Huang et al., Endocrine Connections (2026) 15 e250478

Aumento significativo da pressão arterial foi observado nos pacientes com acromegalia, sendo que 33.3% destes já tinham o diagnóstico de hipertensão arterial sistêmica (HAS) e estavam em tratamento medicamentoso.

Não houve diferenças, entre os dois grupos, em relação a glicemia capilar, ácido úrico, colesterol, triglicerídeos, HDL e LDL.

Em relação aos parâmetros ecocardiográficos convencionais, não houve diferenças na FE do ventrículo esquerdo (FEVE) entre o grupo controle e o grupo de pacientes com acromegalia, ambos com valores dentro da faixa de normalidade (59.11 ± 4.8% x 60.3 ± 3.65%, P = 0.312).

Pacientes na fase ativa da doença tiverem maiores valores de volume atrial esquerdo indexado (22.6 ± 6.3 x 29.9 ± 10.9. P = 0.003), velocidade do refluxo tricúspide (1.8 ± 0.5 x 2.1 ± 0.3, P = 0.007), espessura diastólica do septo interventricular (8.3 ± 1.3 x 10.4 ± 2.3, P = 0.001), espessura diastólica da parede posterior (7.6 ± 1.0 x 9.0 ± 1.7, P < 0.001), volume diastólico final do VE (78.3 ± 16.1 x 92.3 ± 28.6, P = 0.032) e volume sistólico final (30.9 ± 6.5 x 38.3 ± 14.5, P = 0.021).

Ainda, as velocidades das onda E (84.7 ± 18.7 x 66.9 ± 16.3m P = 0.001) e E´ lateral (14.7 ± 3.4 x 12.5 ± 4.0, P = 0.036) foram significativamente menores nos pacientes com acromegalia.

R Huang et al., Endocrine Connections (2026) 15 e250478

A análise do trabalho miocárdico mostrou um GWW (44.8 ± 31.1 x 80.6 ± 75.6 mmHg%, P = 0.027) significativamente aumentado e o GWE (97.0 ± 1.8 x 95.0 ± 3.8%, P = 0.020) significativamente menor nos pacientes com acromegalia em fase ativa.

R Huang et al., Endocrine Connections (2026) 15 e250478
R Huang et al., Endocrine Connections (2026) 15 e250478
R Huang et al., Endocrine Connections (2026) 15 e250478

O strain global longitudinal (SGL), entretanto, foi similar entre os dois grupos. A comparação aos pares (pairwise comparisons) entre os subgrupos também não mostrou diferenças significativas nos pacientes com acromegalia.

R Huang et al., Endocrine Connections (2026) 15 e250478

Nos pacientes com acromegalia, o GWW se correlacionou de forma positiva com idade (r = 0.49, P = 0.009) e com o aumento do IGF-1 (r = 0.47, P = 0.049), e negativamente com história de HAS (r = -0.46, P = 0.0016.

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Já o GWE apresentou correlação negativa com a idade (r = -0.41, P = 0.032) e com o aumento do IGF-1 (r = -0.50, P = 0.033), mas positivamente com histórico de HAS (r = 0.45, P = 0.019). Ambos não foram significativamente associados com idade, tempo de duração da doença, GH e histórico de tratamento.

R Huang et al., Endocrine Connections (2026) 15 e250478

Na população de pacientes com acromegalia em fase ativa, parâmetros mais sensíveis são necessários para a avaliação da função cardiovascular dada a natureza insidiosa da doença.

Os parâmetros de trabalho miocárdico já se mostraram, em outros estudos, como capazes de detectar disfunção sistólica do miocárdio de forma precoce. Os achados do presente estudo mostraram que o GWW foi significativamente maior, enquanto que o GWE significativamente menor nos pacientes com acromegalia ativa, ambos mostrando boa sensibilidade para detectar disfunção sistólica precoce.

Ainda, tanto o GWW quanto o GWE se correlacionaram de forma significativa com o aumento do IGF-1, sugerindo que o ponto de corte adotado pelo estudo (> 100% do valor do limite superior da normalidade) possa ser um parâmetro para identificar pacientes sob maior risco cardiovascular.

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