Ecocardiografia do Esporte: Trabalho Miocárdico como Marcador de Remodelamento Cardíaco em Atletas de Endurance

Os atletas de endurance podem apresentar um padrão esperado de adaptação induzida pela atividade física de alta intensidade caracterizada por um remodelamento excêntrico.

A diferenciação entre adaptação e doença muitas vezes é desafiadora e a ecocardiografia avançada é peça fundamental neste cenário. Desta maneira, o trabalho miocárdico (myocardial work – MW) tem se mostrando uma ferramenta ecocardiográfica útil, muito embora os dados na literatura ainda sejam escassos.

G. Di Gioia et al. International Journal of Cardiology 442 (2026) 133863

Estudo com 153 atletas de elite, modalidade endurance, avaliados antes da participação nos jogos olímpicos de 2024 em Paris. Todos os participantes foram recrutados entre outubro de 2023 e abril de 2024 e foram considerados elegíveis apenas aqueles submetidos a um regime de treinamento de alta intensidade há pelo menos 02 meses do início das análises.

Aqueles em uso de alguma terapia farmacológica crônica foram excluídos, bem como aqueles com alguma doença cardíaca estrutural.

Todos os indivíduos eram atletas de nível olímpico, sob regime de treinamento de alta intensidade (> 10h de treinamento/semana) e com histórico de anos de dedicação ao esporte de alta intensidade.

Diferentes modalidades esportivas foram contempladas, a citar (1) ciclismo, (2) canoagem, (3) corridas de longa distância, (4) marcha atlética, (5) nadadores de longas distâncias (800 metros), (6) triathlon e (7) pentathlon.

As análises foram realizadas a partir de eletrocardiograma de repouso, exames laboratoriais, ecocardiograma bidimensional e teste cardiopulmonar (ergoespirometria).

A idade média foi de 26.3 ± 4.1 anos e 58.8% dos participantes eram do sexo masculino. O tempo médio de atividade física de alta intensidade foi de 23.8 ± 6.8 horas/semana, sendo um total de 42 atletas (27.4%) de ciclismo, 41 (26.8%) de canoagem tipo “rowing”, 26 (20%) de canoagem tipo “canoeing”, 25 (16.3%) atletas de atletismo (maratona e marcha atlética – 20 e 50 km), 7 (4.6%) de triathlon, 6 (3.9%) de natação de longas distâncias e 6 (3.6%) de pentathlon.

Não foram observados casos de hipertrofia e/ou remodelamento concêntrico entre os participantes. 66 atletas (43.1%), porém, tinham hipertrofia excêntrica e os demais (87) com geometria ventricular normal.

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Aqueles com hipertrofia (HVE) excêntrica tinham idade semelhante comparados com aqueles com geometria normal, bem como a prevalência entre gêneros (60.6% homens com HVE excêntrica x 57.5% homens com geometria ventricular normal, p = 0.698). Ainda, o volume de treino foi parecido entre esses atletas (24.2 ± 6.5 h/semana x 23.5 ± 6.9 h/semana).

A única diferença foi que a prevalência de geometria ventricular esquerda normal foi maior entre os praticantes de atletismo e de canoeing. Por outro lado, uma prevalência maior, porém não significativa, de HVE excêntrica foi observada entre os ciclistas.

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As diferenças ecocardiográficas entre aqueles com HVE excêntrica e aqueles com geometria normal do ventrículo esquerdo (VE) estão listadas na tabela 02.

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Vale destacar que aqueles com HVE excêntrica apresentavam um padrão de remodelamento simétrico, ou seja, com acometimento de todas as 04 câmaras cardíacas. Eles tinham maiores espessuras diastólica tanto do septo interventricular quanto da parede posterior e maiores volumes indexados do VE, com maiores valores de índice de massa ventricular esquerda.

Não foram observadas diferenças em relação à fração de ejeção (FE), parâmetros de função diastólica e no strain global longitudinal (SGL).

Em relação aos parâmetros do trabalho miocárdico, o índice de trabalho miocárdico (GWI) foi similar (p = 0.668), bem como os valores de trabalhos construtivo (p = 0.862) e desconstrutivo (p = 0.439), além da eficiência global – GWE ( p = 0.832).

Resultados semelhantes foram observados na avaliação das demais câmaras cardíacas. Atletas com HVE excêntrica tinham maiores diâmetro e volume indexado do átrio esquerdo (AE), diâmetro do ventrículo direito (VD), com parâmetros de strain normais.

Quanto ao teste cardiopulmonar, os atletas com HVE excêntrica tinham uma frequência cardíaca (FC) de repouso menor, maiores picos de exercício (expressos em watts) e maiores VO2 (+ 12.5%), assim como o pulso de O2. Tais achados sugerem uma maior capacidade funcional entre aqueles atletas que apresentam remodelamento adaptativo.

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Por outro lado, a taxa de arritmias foi similar entre os atletas com e sem HVE excêntrica.

A análise de correlação entre o os índices de trabalho miocárdico e parâmetros clínicos, ecocardiográficos e ergoespirométricos está listada na tabela 04.

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Já as análises uni e multivariada foram realizadas para determinar os parâmetros independentemente associados à HVE excêntrica, com o VO2 máximo (p = 0.028, OR 1.050 [C.I. 1.005–1.097]) e pulso de O2 (p =0.006, OR 1.179 [C.I. 1.048–1.326]) mostrando poder estatístico.

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Os resultados mostram, portanto, que atletas com remodelamento cardíaco induzido pela atividade física de alta intensidade apresentam parâmetros normais de trabalho miocárdico, sem haver diferença significativa em comparação com aqueles atletas sem um remodelamento pronunciado.

Esses achados atestam a natureza fisiológica do remodelamento induzido pela atividade física em atletas de elite.

Por outro lado, estudos prévios demonstraram que a análise de trabalho miocárdico apresenta diferença significativa entre atletas de endurance e indivíduos sedentários.

Assim sendo, além de confirmar a natureza fisiológica das alterações estruturais induzidas pela atividade física em atletas de endurance, o trabalho miocárdico pode auxiliar não só na diferenciação entre adaptação e doença (valores normais sugerem fortemente um fenômeno benigno enquanto que parâmetros alterados podem sugerir uma condição patológica), mas também fornecer informações sobre treinabilidade.

Esta ferramenta deve ser utilizada de forma rotineira na avaliação ecocardiográfica de atletas.

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