O curso de ecocardiografia esportiva faz parte do portifólio da ECOPE já há alguns anos e, sob a coordenação do Professor João Giffoni, vem cada vez mais se consolidando como um dos produtos mais procurados da escola.
Nele, é reforçado a importância do trabalho miocárdico como ferramenta essencial (eu diria até obrigatória!) para uma correta análise do remodelamento cardíaco induzido pela atividade física de alta intensidade.
Não à toa, recentes publicações vem destacando o uso desta ferramenta ecocardiográfica para a diferenciação entre um remodelamento fisiológico (coração de atleta) de um fenótipo patológico.
Vamos então para mais uma …
O remodelamento cardíaco em atletas, comumente chamado como “coração de atleta”, envolve alterações estruturais e funcionais em reposta ao treinamento físico prolongado.
Em particular, nas modalidades de endurance, as alterações hemodinâmicas crônicas em razão de grandes volumes de treinos de forma prolongada levam à uma adaptação mais acentuada e do tipo excêntrica.
É verdade, porém, que nem todos atletas apresentarão remodelamento e, dentre aqueles que se adaptam, a magnitude das alterações estruturais/funcionais pode variar a depender de diferentes fatores (sexo, idade, fatores genéticos, tempo/volume/intensidade de treinamento …).
Outro ponto é que, como o atleta não está imune à doenças, sempre existirá a possibilidade de que as alterações presentes sejam em resposta a um processo patológico e não necessariamente uma adaptação à atividade física de alta intensidade. A diferenciação entre saúde e doença é, portanto, um cenário bastante desafiador neste contexto.
E é aí que ecocardiografia avançada entra em ação…
Para este estudo, foram recrutados 153 atletas de elite da modalidade de endurance e que foram avaliados antes da participação nos jogos olímpicos de Paris em 2024. Todos os participantes estavam em programa de treinamento de alta intensidade há pelo menos 02 meses. Aqueles com doença cardíaca estrutural conhecida ou em uso de terapia farmacológica crônica foram excluídos.
Dentre os participantes, 42 (27.4%) eram ciclistas, 41 (26.8%) praticantes de remo, 26 (20%) da modalidade de canoagem, 25 (16.3%) corredores de marcha atlética (20 e 50 km), 7 (4.6%) triatletas, 6 (3.9%) nadadores de longa distância e 6 (3.6%) atletas de pentatlo.
A idade média foi de 26.3 ± 4.1 anos, sendo 58.8% da amostra do sexo masculino. A média do peso corporal foi de 71.3 ± 13.6 Kg, do índice de massa 22 ± 3.6 Kg/m².
Quanto à geometria ventricular esquerda, não foram observados casos de remodelamento ou hipertrofia concêntrica. 66 atletas (43.1%) tinham hipertrofia excêntrica (HVE exc). O restante, por sua vez, apresentavam uma geometria ventricular normal (n = 87, 56.9%).
Os atletas com hipertrofia excêntrica apresentaram idade similar em comparação com aqueles com geometria do ventrículo esquerdo normal, prevalência semelhante em relação ao sexo (60.6% dos atletas do sexo masculino com HVE excêntrica x 57.5% do sexo masculino sem HVE exc, p = 0.698). Ainda, apresentavam peso corporal, índice de massa corporal e volumes de treino semelhantes (24.2 ± 6.5h/semana x 23.5 ± 6.9, p = 0.538).
A única diferença observada foi que a prevalência de geometria ventricular esquerda normal foi maior nos atletas de marcha atlética (p = 0.034) e conoagem (p = 0.0004). Por outro lado, houve maior prevalência de HVE exc, mas não de forma significativa, nos atletas de ciclismo.
Os atletas com HVE exc mostraram um padrão de adaptação simétrico, ou seja, remodelamento de todas as 04 cavidades do coração. Neste grupo de pacientes, foi observado espessuras diastólicas maiores dos septo e parede posterior e maiores volumes indexados do ventrículo esquerdo.
Não foram observadas diferenças em relação à fração de ejeção (FE), parâmetros de função diastólica e strain global longitudinal (SGL). Ainda, os parâmetros de trabalho miocárdico também foram similares entre aqueles com e sem HVE exc (GWI: p = 0.668; GCW: p = 0.862; GWW: p = 0.439; e GWE: p = 0.832).
Os atletas com HVE exc apresentaram menor frequência cardíaca (FC) em repouso, maior pico de exercício em Watt, maior VO2 (+12.5%) e maior pulso de O2 na ergoespirometria. A taxa de arritmias (extrassístoles ventriculares e supraventriculares) foi semelhante entre os atletas com e sem HVE exc.
Excluindo parâmetros colineares como pressão arterial e SGL em que foi observada uma significância estatística mais forte, os demais parâmetros apresentaram uma correlação fraca entre trabalho miocárdico, parâmetros clínicos e parâmetros da ergoespirometria:
Já na análise multivariada, o VO2 máximo (p = 0.028, OR 1.050, IC: 1.005-1.097) e a curva de pulso de 02 (p = 0.006, OR 1.179, IC: 1.048-1.326) apresentaram associação estatisticamente relevante com hipertrofia excêntrica.
Esses resultados demonstram, portanto, que atletas de endurance que apresentam remodelamento cardíaco continuam a apresentar parâmetros normais de trabalho miocárdico e sem diferenças significativas quando comparados com atletas que não apresentam remodelamento cardíaco induzido pela atividade física de alta intensidade.
Assim sendo, esses achados corroboram a natureza fisiológica das alterações estruturais encontradas nesta população, independente da magnitude do remodelamento. Vale destacar que aqueles que apresentam remodelamento, por sua vez, tendem a apresentar melhor performance nos testes funcionais.
Graduado em medicina pela Universidade Potiguar (UnP). Possui residência em Clínica Médica pelo Hospital Universitário Onofre Lopes – HUOL (UFRN) e em Cardiologia pelo Procape – UPE. Porta o título de especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e é pós-graduado em Ecocardiografia, pela ECOPE.

