Os distúrbios musculoesqueléticos relacionados ao trabalho já são amplamente reconhecidos como um risco ocupacional entre aqueles que realizam exames ultrassonográficos.
Os ecocardiografistas, por sua vez, estão particularmente sob maior risco em razão das demandas intrínsecas a esta modalidade diagnóstica: (1) necessidade de pressão prolongada através do transdutor, (2) avaliações repetitivas e (3) necessidade de se assumir posições estáticas de forma sustentada para se obter imagens de boa qualidade.
Essas demandas normalmente levam a um (1) posicionamento anteriorizado do pescoço e do tronco, (2) abdução dos ombros e (3) estiramento excessivo para alcance contribuindo, assim, para maior tensão musculoesquelética.
Apesar dos avanços ergonômicos dos equipamentos, esta preocupação ainda é um ponto relevante uma vez que, nos EUA, os distúrbios musculoesqueléticos relacionados ao trabalham afetam até 90% dos “sonographers” durante suas carreiras.
Assim, a ASE traz uma série de recomendações com o objetivo de se prevenir doenças ocupacionais musculoesqueléticas naqueles profissionais que executam o exame ultrassonográfico.
Vamos a alguns pontos importantes …
Ao entrarmos em um carro pela primeira, antes de qualquer coisa, a primeira medida a se realizar é o ajuste de bancos, retrovisores e altura do volante visando segurança e melhor ergonomia. Da mesma forma, no nosso laboratório de ecocardiografia não deve ser diferente.
Portanto, devemos primeiramente fazer ajustes no carrinho da máquina, altura da maca, bem como da cadeira antes de iniciarmos os exames.
Posicionar o paciente muito distante do examinador resultará em flexão excessiva do tronco, abdução do membro superior > 30 graus, extensão do ombro e desalinhamento da coluna.
Vamos a alguns erros comuns …
O ajuste inadequado da posição do monitor pode levar, quando posicionado muito alto, a uma posição esticada do pescoço, extensão e rotação da cabeça.
O posicionamento da máquina, quando muito distante do examinador, pode leva a uma flexão do tronco no sentido anterior, braços esticados e extensão dos punhos.
Assim, recomenda-se que a (1) máquina esteja posicionada em uma zona neutra de alcance próxima ao examinador, (2) posicionamento correto dos cotovelos (flexão em 90 graus) e (3) posição neutra dos punhos.
Quando o paciente fica posicionado muito longe do examinador, pode levar a uma abdução excessiva do ombro, flexão lateral da coluna e desvio do punho.
Não realizar o apoio do braço na maca resulta em abdução prolongada e sem suporte do membro superior fazendo com que haja maior tensão e fadiga no ombro.
Quando o examinador senta em posição muito baixa durante o exame há extensão do punho, elevação dos ombros (sobrecarregando a porção superior do trapézio) e uma postura mais curvada do tronco.
O posicionamento ideal engloba altura adequada da cadeira, com os antebraços posicionados horizontalmente, punhos em posição neutra, coluna ereta com apoio para a região lombar.
Além do posicionamento do paciente/examinador/equipamento em si, o layout da sala de exames também merece atenção: sala com pelo menos 14 m² para acomodar adequadamente paciente, examinador e equipamentos; o piso deve permitir que os equipamentos possam ser deslocados com facilidade; e o layout da sala ser elaborado de forma que seja possível realizar o reposicionamento de cadeiras, mesas e máquinas.
O ajuste de iluminação e de temperatura também precisa ser destacado para garantir um ambiente confortável. Já os acessórios utilizados com frequência devem estar dispostos de maneira a se obter fácil acesso e evitar vícios posturais desnecessários.
Um outro ponto importante e que talvez não valorizemos muito é a forma de segurar o transdutor, bem como de realizar as manobras de varredura …
A forma de pegar o transdutor é essencial para uma (1) imagem de qualidade, (2) destreza e (3) prevenção de lesões. Ao longo do tempo, com a prática, os controles motores finos acabam se tornando intuitivos, contudo um posicionamento neutro do punho e uma pegada/aperto eficiente devem ser ensinados e reforçados desde o início da curva de aprendizado para a realização do exame.
Um erro comum, apontado pela diretriz, é pegar o transdutor fechando todos os dedos à semelhança da forma de se segurar um martelo. Apesar de conferir firmeza, este tipo de pegada pode limitar movimentos finos, fazendo com que o examinador assuma uma posição não neutra do punho e com frequência o estique.
Uma posição mais ergonômica envolve segurar o transdutor de forma mais leve e com as pontas dos dedos, posicionando o primeiro quirodáctilo (o famoso dedão) em posição oposta a dos outros dedos.
A prevenção sempre será a melhor estratégia. Portanto, além de adotar postura adequada e criar ambiente ergonomicamente favorável, alguns exercícios podem ser utilizados no sentido de prevenir lesões osteomusculares.
Adotar pequenas pausas durante a agenda de exames pode reduzir as tensão e contração muscular sustentadas, assim ajudando no alívio das dores eventualmente presentes. Até pequenas medidas como remover o transdutor do paciente pode auxiliar no relaxamento da mão e reduzir a carga no membro superior e ombro.
O reconhecimento precoce é crucial para a prevenção de lesões crônicas. Os sintomas costumam ser subvalorizados e considerados como “parte do trabalho” e isso pode atrasar intervenções que possam evitar lesões mais significativas. Os principais sintomas estão descritos na tabela a seguir.
A tecnologia pode auxiliar na garantia de uma melhor ergonomia e diminuição da incidência e prevalência das lesões relacionadas ao trabalho.
A utilização de “wearables” capazes de monitorar a postura e sensores de inércia (imobilidade por tempo prolongado) podem oferecer informações em tempo real, ajudando ao examinador a adotar medidas para evitar lesões.
A inteligência artifical, como facilitador de aquisição de imagens, de realização de medidas e de documentação do exame podem contribuir neste sentido também.
Graduado em medicina pela Universidade Potiguar (UnP). Possui residência em Clínica Médica pelo Hospital Universitário Onofre Lopes – HUOL (UFRN) e em Cardiologia pelo Procape – UPE. Porta o título de especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e é pós-graduado em Ecocardiografia, pela ECOPE.