A avaliação da aorta torácica é parte importante do exame ecocardiográfico e, como sabemos, os valores absolutos podem levar à confusão diagnóstica. A indexação da medida é, portanto, sempre recomendada.
Contudo, quando estamos diante de pacientes obesos ou extremamente musculosos, a indexação pela superfície corporal pode não refletir um parâmetro adequado.
A diretriz de 2022 da American Heart Associoation/American College of Cardiology recomenda o ajuste do diâmetro ecocardiográfico da aorta de diferentes formas, incluindo Z score, o índice aórtico (superfície corporal), índice pela altura e a área transversal sobre a altura.
Um estudo avaliou a indexação através do Z score e através do índice aórtico comparando o peso atual e o peso ideal para saber se haveria reclassificação proporcionalmente significativa em pacientes com aorta “não dilatada” para aorta “dilatada”.
Uma análise secundária foi realizada em pacientes com IMC ≥ 25.
Foram avaliados valores absolutos das medidas de raiz de aorta e aorta ascendente de um banco de exames realizados no Tufts Medical Center em 2022. Pacientes < 20 anos de idade ou com imagens inadequadas para as medidas foram excluídos.
A medida da raiz de aorta pelo Z score foi restrita aos casos em que o diâmetro foi maior ou igual a 4 cm se IMC ≥ 18 ou maior igual a 3.5 cm se IMC < 18. Já a análise pelo índice aórtico foi realizada quando raiz de aorta > 4 cm para homens e > 3.6 cm para mulheres.
A análise da aorta ascendente foi restrita a casos com > 3.8 cm para homens e > 3.5 cm para mulheres. Os valores de corte escolhidos representam 2 desvios padrão acima do limite superior de normalidade tanto para a raiz de aorta quanto para a aorta ascendente.
Quanto aos dados demográficos, os grupos diferiram apenas em relação à idade (na análise da aorta ascendente pelo índice aórtica, a média de idade foi 2.5 anos maior), sexo (o grupo do Z score foi desproporcionalmente composto por homens) e E/e´ (o grupo de aorta ascendente pelo índice aórtico apresentou maiores valores desta relação).
Para a análise da raiz de aorta pelo Z score, 485 pacientes (451 homens, 34 mulheres) preencheram os critérios de inclusão, sendo 352 pacientes com IMC ≥ 25.
Nesta análise, 18% dos pacientes com IMC ≥ 25 e com Z < 2 em relação ao peso atual foram reclassificados para Z ≥ 2 quando ajustado para o peso ideal (P<0.001), comparando com apenas 2% dos pacientes com IMC < 25 (P< 0.001).
A figura 01 mostra o Z score médio tanto para o peso atual quanto para o peso ideal para cada categoria de IMC.
A análise por regressão linear mostrou uma relação positiva e estatisticamente significativa entre o valor absoluto da raiz de aorta e o peso ideal (OR: 1.71; 95%IC 1.029-1.334, P = 0.017), mas não com o peso atual (OR: 1.051; 95%IC 0.960-1.150, P = 0.280).
Para a análise da raiz de aorta pelo índice aórtico, 456 pacientes (400 homens, 56 mulheres) preencheram os critérios de inclusão, com 331 pacientes (73%) apresentando IMC ≥ 25. Quando indexado pelo peso ideal, 58% dos pacientes com valores normais (indexados) da raiz de aorta foram reclassificados como tendo pelo menos “aumento leve” (P < 0.001).
Aqueles com IMC ≥ 25 foram mais frequentemente reclassificados comparados com aqueles com menores IMC (64% x 13%, P < 0.001).
A reclassificação ocorreu em 31% dos pacientes com “aumento leve” e em 35% dos pacientes com “aumento moderado” (índice aórtico ≥ 2.4 cm/m² para homens e ≥ 2.5 cm/m² para mulheres).
Para a análise da aorta ascendente pelo índice aórtico, 632 pacientes (505 homens, 127 mulheres) preencheram os critérios de inclusão, com 473 pacientes (74%) apresentando IMC ≥ 25. Quando indexado para o peso ideal, 86% dos pacientes com valores (indexados) normais de aorta ascendente foram reclassificados para pelo menos “aumento leve” (P<0.001), definido como ≥ 2,0 cm/m² para homens e ≥ 2.3 cm/m² para mulheres.
Pacientes com IMC ≥ 25 foram mais frequentemente reclassificados quando comparados com aqueles com IMC menor (88% x 40%, P = 0.005). A reclassificação ocorreu em 62% pacientes com “aumento leve” e em 54% dos pacientes com “aumento moderado” ( ≥ 2.2 e ≥ 2.6 para homens e mulheres, respectivamente).
A figura 02 mostra as médias do índice aórtico para o peso atual e para o peso ideal tanto para a raiz de aorta quanto para a aorta ascendente de acordo com o IMC.
Assim, a indexação da aorta para o peso ideal em pacientes com sobrepeso tem a capacidade de reclassificar um número significativo de pacientes de “normal” para “aumentado“, com impactos potenciais no seguimento/manejo desses pacientes.
Embora a indexação pela altura tenha demonstrado capacidade de prever eventos adversos, a indexação pela superfície corporal continua sendo amplamente utilizada, mesmo não havendo consenso sobre qual parâmetro (Z score x índice aórtico) seja o mais indicado.
Graduado em medicina pela Universidade Potiguar (UnP). Possui residência em Clínica Médica pelo Hospital Universitário Onofre Lopes – HUOL (UFRN) e em Cardiologia pelo Procape – UPE. Porta o título de especialista em Cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e é pós-graduado em Ecocardiografia, pela ECOPE.

